No terceiro dia de desfiles no Píer Mauá, a pergunta mais interessante não veio estampada em camiseta, nem apareceu em telão. Ela pairou no ar, entre bordados opulentos, aplausos prolongados, entre a ópera e o funk, o couro e o crochê. Afinal, o que só o ser humano ainda consegue fazer? A resposta surgiu nas passarelas sem didatismo: identidade.
Matéria com memória. Técnica com origem. Roupa que conta uma história, de uma cidade, de um corpo, de uma cultura. Patricia Vieira, Hisha, Handred e Blue Man costuraram uma noite em que a moda brasileira aparece menos como vitrine de tendência e mais como prova material de que ainda há coisas que inteligências artificiais nenhuma poderão inventar.

Patricia Vieira abriu o dia com uma coleção que fez do couro uma superfície de afeto. Não era só técnica, embora técnica houvesse de sobra. Era couro cortado, vazado, pintado, bordado, rendado, mosaicado, tratado como se pudesse absorver o Rio inteiro. A cidade apareceu como linguagem, e não cartão postal: Burle Marx, Igreja da Penha, G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira, paisagem urbana, brilho, croco, crochê, renda, canutilho e patchwork.
O mais interessante é que nada disso soou ilustrativo ou caricato. Patricia não “tematizou” o Rio. Ela filtrou a cidade pela pele da marca. E fez isso olhando também para dentro de casa, ao homenagear sua mãe Vera de Magalhães, matriarca dessa linhagem criativa que transforma herança técnica em futuro. Num calendário de moda frequentemente obcecado pelo novo como fetiche, Patricia preferiu um gesto mais sofisticado: mostrou que tradição, quando tem imaginação, não pesa. Expande.

Seguida pela carioca Handred, a coleção “Akáshica” de André Namitala partiu da ideia dos registros akáshicos, o arquivo sensível onde tempo, memória e imagem se sobrepõem. Com a inteligência para não se perder numa abstração mística demais, seu conceito levou ao corpo camadas estruturadas, cores densas e embalos sensoriais que apenas fibras 100% naturais como a seda, algodão e couro permitem.
Entre vestidos e casacos, os volumes não inflavam suas cores por capricho, mas por necessidade dramática. Havia uma relação muito bonita entre roupa e música. A presença da Companhia de Ópera da Lapa, ao vivo, levou o desfile para um lugar raro: a passarela deixou de ser apenas exibição e virou uma atmosfera de intervenção artística. Como numa ópera brasileira, a coleção trabalhou no atrito entre luz e sombra, barroco e introspecção. O resultado foram roupas que na sua própria multiplicidade tátil quase permitiam senti-los antes mesmo de tocá-los.

Já era noite no píer e a brisa era gelada quando Giovanna Resende fez a estreia da Hisha nas passarelas e elevou a temperatura Com a convicção de que mostrava ali um trabalho único e hipnótico, a coleção “Doura” fez do barroco mineiro um vocabulário de volume, relevo, transparência e ornamento, sem cair nem no figurino nem na reverência vazia ao divino. Seu bordado nunca é acabamento e sim estrutura, arquitetura, argumento histórico e político.
Na inspiração, arabescos, superfícies tridimensionais, drapeados e jogos de luz surgiram como continuação contemporânea de uma memória mineira que conhece o altar, o excesso e o silêncio. Havia ali um traço condutor importante: opulência com lastro. Não era enfeite pelo enfeite. Era trabalho manual pesado que resultava em peças de brilho e movimento incomparáveis.
Tudo isso sustentado por 200 mãos de bordadeiras mineiras e muitas horas de trabalho minucioso, com um rigor que devolve ao artesanato o estatuto de alta costura. Hisha entrou no line-up como quem chega nova, mas nem de longe pequena.

Fazendo da praia um patrimônio visual em permanente reinvenção, a Blue Man encerrou o dia nos lembrando que a memória é viva e, claro, cheia de movimento. “Rota 72” foi menos um desfile de moda praia e mais uma retomada de linhagem. Com um biquíni de lacinho azul de 4 metros no meio da passarela e a garota de Ipanema Helô Pinheiro abrindo e fechando a apresentação, metade do raciocínio já se consolidava: a Blue Man conhece como ninguém o valor de uma origem.
A coleção de Sharon Azulay percorreu o litoral brasileiro sem sair da própria identidade, revisitando o biquíni de lacinho, o denim, as estampas quentes, os brilhos, os degradês e a ideia de que a praia, no Brasil, nunca foi apenas geografia. É comportamento, linguagem, erotismo, descanso, performance, classe, improviso, identidade nacional. A Blue Man sabe disso há décadas e, nesta noite, soube atualizar esse repertório sem museificar a si mesma.
Houve laços, resort wear, bandanas jeans, bananas de crochê enfrentando biquínis, referências ao pós-praia, ecos de brazilcore amadurecido, collab queer, funk, bossa e uma alegria nada cínica. Quando a bateria da Viradouro puxou o final, o desfile já tinha deixado claro que beachwear, aqui, não é nicho. É imaginação de país.
E talvez seja esse o melhor saldo da noite. Em vez de pedir validação externa ou correr atrás de uma ideia importada de luxo, as marcas resolveram falar fluentemente a própria língua. No momento em que tanta coisa tenta parecer global apagando sotaque, o terceiro dia da RioFW fez o oposto. No Brasil, identidade é justamente o que torna a moda daqui impossível de substituir.

