As eleições deste domingo (4) mexeram numa engrenagem que, durante anos, funcionou com eficiência de relógio suíço na política do Rio: a capacidade das grandes igrejas evangélicas de transformar sua força religiosa e sua estrutura institucional em votos para candidatos escolhidos pelas denominações.
Não significa que o eleitor evangélico tenha perdido peso — muito menos que tenha abandonado a política.
O que as urnas de 2026 mostram é algo diferente: algumas das igrejas que historicamente construíram bancadas próprias sofreram derrotas importantes e perderam representantes.
Na Igreja Universal do Reino de Deus, fundada pelo bispo Edir Macedo, o recado das urnas foi mais contundente.
A denominação chegou à eleição com quatro deputados federais do Rio identificados com a igreja: Rosangela Gomes, Luis Carlos Gomes, Jorge Braz e Marcelo Crivella. Todos pelo Republicanos.
Na nova bancada fluminense, a presença diminuiu. Só Luis Carlos Gomes conseguiu se eleger.
Nem a relação familiar com a Igreja Universal foi suficiente
Marcelo Crivella, sobrinho de Edir Macedo e um dos nomes de maior projeção política da história da Universal, disputou uma das duas vagas do Rio no Senado. O ex-prefeito do Rio terminou a eleição com pouco mais de 500 mil votos (cerca de 3,4%). Muito, mas muito distante dos eleitos Carlos Portinho e Carlos Jordy, ambos do PL, que ultrapassaram a marca dos 3,9 milhões de votos.
A votação ganha dimensão justamente pela trajetória de Crivella. Ele já ocupou uma cadeira no Senado e, em 2016, foi eleito prefeito do Rio com 1,7 milhão de votos no segundo turno.
Desta vez, nem o peso de seu sobrenome dentro da Universal nem a estrutura política construída ao longo de décadas foram suficientes para colocá-lo perto da disputa por uma das duas vagas.
Os filhos de R.R. Soares ficam sem mandato
Na Igreja Internacional da Graça de Deus, fundada pelo missionário R.R. Soares, o resultado também foi ruim.
Dois filhos do líder religioso concorreram no Rio pelo PSDB e nenhum conseguiu se eleger.
Marcos R.R. Soares tentou permanecer na Câmara dos Deputados, enquanto Filipe R.R. Soares buscou uma cadeira na Assembleia Legislativa. Os dois ficaram na suplência.
É uma mudança importante para uma família que, durante anos, conseguiu manter representação política associada diretamente ao nome do fundador da Igreja da Graça.
Madureira também perde uma cadeira de peso
Uma das mais tradicionais denominações do universo pentecostal fluminense, a Assembleia de Deus de Madureira também sofreu uma derrota relevante.
Otoni de Paula (PSD), pastor e um dos deputados evangélicos de maior exposição política do Rio nos últimos anos, não conseguiu renovar o mandato de deputado federal.
Otoni havia recebido apoio de lideranças da Assembleia de Deus de Madureira e chegou à eleição depois de dois mandatos na Câmara. Sua trajetória política foi marcada inicialmente pela forte identificação com o bolsonarismo, mas, nos últimos anos, o deputado se aproximou de Eduardo Paes e abriu diálogo com o governo Lula.
Mas a igreja não ficou sem representação. Rosenverg Reis (MDB) conseguiu renovar seu mandato na Assembleia Legislativa, com 139.866 votos.
Malafaia, a exceção que confirma a regra, passa praticamente ileso
Se Universal, Igreja da Graça e Madureira têm motivos para fazer as contas depois das urnas, o grupo político-religioso mais próximo de Silas Malafaia atravessou a eleição em situação diferente.
Dois nomes fortemente associados ao pastor foram eleitos.
Sóstenes Cavalcante (PL), pastor licenciado da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, igreja comandada por Malafaia, garantiu novo mandato de deputado federal. Sóstenes é uma das principais lideranças da bancada evangélica no Congresso e teve atuação destacada na articulação política do campo bolsonarista durante a campanha. A ligação política e religiosa entre os dois é antiga e continuou explícita durante o processo eleitoral de 2026.
Na Assembleia Legislativa, Alexandre Isquierdo (PL) usou até Malafaia no nome de urna — e também conquistou a sua cadeirinha.