No dia 8 de março foi mundialmente comemorado o Dia Internacional da Mulher. Infelizmente, aquilo que seria a celebração da importância delas, teve o brilho embaciado por dois acontecimentos noticiados pela imprensa internacional.
Em São Paulo, como foi amplamente divulgado, uma manifestação comemorativa da data, foi tumultuada pela presença agressiva de alguns homens contrários ao evento. Os provocadores protestaram exibindo cartazes, inclusive alguns com retratos do presidente norte-americano (!!!).
Naquele mesmo dia, foi divulgada uma pesquisa internacional (Ipsos e King’s College London) revelando que um terço dos jovens homens da Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) acredita que a esposa deve obedecer ao marido. A mim, essa constatação, mais do que surpreender, provocou uma grande reflexão, pois não creio que seja apenas um dado estatístico. É um sintoma de algo mais profundo, mais estrutural e, sobretudo, mais preocupante. Afinal, essa geração foi a primeira a crescer com a tecnologia digital consolidada, com informações à farta e deveria ter a mente mais aberta. Em pleno século XXI, quando a igualdade de gênero já deveria ser um valor consolidado, parte expressiva da juventude aparece disposta a reabilitar ideias que pertencem ao passado.
A reflexão exigiu informações, e essas mostraram que não se trata de um fenômeno isolado. A adesão juvenil a valores patriarcais cresce em um ambiente marcado por saturação de informações, além de disputas políticas e ideológicas intensas. As redes sociais, hoje principal fonte de formação de opinião entre jovens, amplificam discursos que exaltam hierarquias familiares e masculinidades autoritárias. Influenciadores misóginos e postagens covardemente anônimas defendem a submissão feminina e encontram terreno fértil em algoritmos que privilegiam o preconceito.
Mas o problema não se resume ao universo digital. Por aqui, o avanço das igrejas neopentecostais que pregam modelos familiares rígidos exerce influência direta sobre a visão de mundo de milhões de jovens. A afirmação de que a esposa deve obedecer ao marido é vendida como uma verdade bíblica. Embora o campo evangélico seja diverso, uma parcela significativa de suas lideranças defende modelos familiares hierárquicos, nos quais o “o varão é a cabeça do lar” e a mulher, a auxiliadora obediente. Esses discursos, repetidos semanalmente nos cultos, lives, podcasts e redes sociais de pastores influentes, moldam mentalidades. Não se trata de demonizar a fé, mas de reconhecer que parte desse universo religioso reforça papéis de gênero que legitimam a submissão feminina, e isso é refletido diretamente nos números da pesquisa.
Há ainda um componente de reação machista. O avanço do feminismo, a maior presença das mulheres no mercado de trabalho e a contestação de privilégios historicamente masculinos geram desconforto em alguns setores da juventude. Para esses jovens, reafirmar a autoridade masculina dentro de casa funciona como resposta defensiva a um mundo em transformação. É a nostalgia de uma ordem que nunca foi justa, mas que oferecia a alguns a sensação de controle. Em momentos assim, cresce a tentação de buscar refúgio em estruturas rígidas, previsíveis, “como antigamente”. A família antiquada e muitas vezes carregadas de hipocrisia e falso moralismo, travestida de conservadora, reaparece. A família dita tradicional, onde o homem é o provedor, ressurge como promessa de ordem. E, nesse pacote, a obediência feminina volta a ser vendida como virtude.
O dado revelado pela pesquisa não deve ser tratado como curiosidade sociológica. Ele é um alerta. Mostra que conquistas sociais não são irreversíveis e que a igualdade de gênero continua sendo um projeto em disputa. A naturalização da obediência feminina não é apenas um retrocesso simbólico; é a porta de entrada para práticas que historicamente alimentaram desigualdades, violências e silenciamentos. Não é à toa que o feminicídio está se tornando corriqueiro no nosso país!
O fato de tantos jovens defenderem a obediência feminina não significa apenas que velhas ideias persistem. Mostra que elas estão sendo calculadamente reatualizadas, reembaladas e reintroduzidas em uma geração que deveria estar rompendo com elas. É um aviso de que a igualdade de gênero não está garantida. É uma construção diária, sujeita a retrocessos.
Se quisermos enfrentar essa verdade, será preciso investir em educação crítica, fortalecer políticas de igualdade e, sobretudo, debater narrativas nas escolas, nas redes, nas igrejas e dentro das próprias famílias. Porque, se não o fizermos, corremos o risco de ver o futuro repetir um passado indesejado.


Prezado Dr. Alfeu, mais uma vez, parabéns pelas belas palavras e por alertar a respeito de um assunto, que alguns não querem enxergar.
Concordo plenamente contigo…
Olá, Alfeu. O assunto tão bem abordado por você, como tantos outros que estão em pauta atualmente , é inquietante . No início da pandemia que nos afligiu recentemente, houve uma expectativa de que sairíamos dela comportalmente fortalecidos. Ledo engano!
O tema escolhido é atualizado, muito importante e ao mesmo tempo complicado. Alfeu, seus comentários e suas observações durante todo o texto, deixam bem claro, o seu domínio e a sua convicção no tratamento do embaraçado assunto. Parabéns.
Parabéns! Nada mais a acrescentar.
Sim, muito preocupante, Alfeu! Mas este não é um fenómeno exclusivamente brasileiro. Em França, vemos o mesmo, simplesmente nas diferenças salariais para as mesmas funções. Em França, as mulheres ganham, em média, 20% menos do que os homens… e isto apesar das diretrizes de igualdade salarial! Para não falar dos feminicídios cometidos por parceiros ou maridos. Em 2026, já chegámos a 7 por mês, e os violação aumentaram 8% até 2025, atingindo os 132.300 (15 violação por hora!). Sim, a educação — estas são questões que precisam mesmo de ser abordadas com muita seriedade ao longo de todo o sistema escolar.