Outro dia a discussão no nosso chope semanal começou quando o garçom ofereceu uma lista de tira-gostos e o Caladinho vetou todos, questionando os botequins que não se modernizam e oferecem salgadinhos saudáveis. Foi o ponto de partida para uma discussão ferrenha. Uns diziam que tudo era relativo, o que seria veneno pro diabético ou cardíaco não fazia nenhum mal para quem não padecia daquilo. Uns apoiavam, outros discordavam, quando o abstêmio Paulo Manon chegou, e com aquele ar professoral que transpira inteligência e cultura, tomou a palavra e, com humor, explicou que aquilo era assunto sério, e que não caberia “achologia”.
A classificação dos alimentos, explicou, fora estabelecida cientificamente e, portanto, deveria ser bem mais divulgada, para melhoria da saúde do povo e da economia. Sim, da economia local, regional e nacional, frisou. Diante do silêncio atencioso dos amigos, ele tomou fôlego e despejou conhecimento:
Todo mundo sabe que comer é uma das coisas mais prazerosas que existe. O problema é que, atualmente, escolher o que comer virou quase um teste de sobrevivência. De um lado, os alimentos naturais: lindos, frescos, cheios de vida, quase posando para fotos no Instagram. Do outro, os ultraprocessados: coisas que tem cor de comida, textura de comida, cheiro de comida, mas têm a mesma naturalidade de um boneco de cera. Entre os dois, estão os alimentos processados, tentando fazer o papel de diplomatas nessa guerra gastronômica — tipo aquele amigo que tenta agradar os dois lados para evitar uma briga no bar.
Obviamente, os alimentos naturais são aqueles que vêm da terra, das árvores, das vacas, das galinhas — e não de laboratórios cujos nomes parecem senhas de Wi-Fi. São frutas, verduras, legumes, carnes frescas, grãos. Simples, honestos, diretos ao ponto. O corpo humano olha e pensa: “Ah, beleza, sei o que fazer com isso, não preciso chamar um químico para traduzir”. E, claro, ainda fortalecem a economia regional: cada banana comprada na feira é um “muito obrigado” para o agricultor que acordou às quatro da madrugada.
Os denominados processados são aqueles que receberam uma ajudinha humana, mas sem drama. Um pão decente, um queijo que não brilha no escuro, um iogurte que não parece ter vindo de Chernobyl. Eles têm seus truques, claro, mas nada que faça os nutricionistas desmaiarem em público. Dá pra encarar. Um pão artesanal é aquele amigo confiável, que nós abraçamos sem restrições. Já um pão cheio de aditivos é o colega que fingimos não ver no corredor, mas, sendo preciso, nós o cumprimentamos. Digamos que os processados são os famosos “Dá pra comer. Se só tem tu, vai tu mesmo”. Na economia, eles mantêm pequenas indústrias vivas, geram empregos e preservam tradições.
Agora, respirem fundo: chegamos aos ultraprocessados. Os supervilães da alimentação moderna. Coloridos, crocantes, sedutores, cheios de promessas. Refrigerantes, salgadinhos, biscoitos recheados, macarrão instantâneo, embutidos, sobremesas prontas… tudo aquilo que parece gritar “sou bem prático, bonito, gostoso, me coma!”, enquanto nossos corpos imploram sussurrando “pelo amor de Deus, não”.
Eles são feitos com ingredientes que nós nunca vimos na vida. Aromatizantes, estabilizantes, emulsificantes, conservantes. Seus rótulos são tão incompreensíveis como as requisições de exames de sangue. E mais: são projetados para nos viciar. Não é que nos falte força de vontade para evitá-los. É luta inglória contra uma competente engenharia de ponta — só que usada contra a gente. O estrago é conhecido: mais obesidade, mais diabetes, mais hipertensão. Cada pacote deveria vir com um aviso: “contém um boleto para pagamento do plano de saúde.”
Economicamente, o impacto é duplo: geram empregos, sim, mas também geram gastos gigantescos com doenças evitáveis. É o clássico “ganha aqui, perde ali… e perde mais.”
Quando escolhemos o que comer, estamos basicamente votando no tipo de sociedade que queremos. Uma que fortalece a agropecuária e reduz doenças, ou outra, que enriquece megacorporações industriais e medicinais enquanto aumentam as filas nos hospitais públicos.
Mas, muita calma, ninguém aqui precisa virar monge nutricional. A vida é corrida, e um atalho de vez em quando não mata ninguém. O cuidado é evitar a tentação de transformar o atalho em rodovia principal.
Comer bem não é frescura. É autocuidado, é economia, é política pública. E tudo começa com uma pergunta simples que vou fazer agora mesmo ao garçom que nos atende:
— Amigo, dá trocar este salaminho do cardápio por uma porção de dadinhos de tapioca?


Pura realidade.
Excelente retrato da atualidade.
Temos que ser vigilantes mesmo, sempre!
Muito bom texto. Vou na cozinha esconder meu macarrão instantâneo. Saudações chefe Alfeu.
O peixe morre pela boca. Há sempre um anzol camuflando uma isca apetitosa..
Realmente
Acredito que hoje, todo mundo sabe qual a melhor alimentação
Estou de pleno acordo que a classificação dos alimentos, deveria ser bem mais divulgada, principalmente para melhoria da saúde do povo. Os alimentos naturais, notadamente as frutas, verduras, legumes e grãos, são aliados da saúde, além de fortalecerem a economia. Bom exemplo de grande consumo no Nordeste do Brasil, é o amendoim, cozido ou torrado, servindo de companhia para uma cerveja bem geladinha. Os ultraprocessados são, de fato, os supervilães da alimentação dos nossos dias. O tema escolhido é super interessante. Parabéns.
Não sou um natureba, mas confesso que alguns ultraproscessados mesmo sendo quase irresistíveis me dão calafrios, não passo nem perto.
Muito boa reflexão. Saber o que comprar para comer é de suma importância.