Nos últimos dias, uma frase tem me rondado como galinha ciscando no quintal: “Você é muito desprendido.” Foi dita assim, sem aviso, sem contexto, sem sequer um gole de café para preparar o terreno. A pessoa que disse é próxima, dessas que não desperdiçam palavras nem precisam fazer média. Por isso mesmo, o elogio — porque soou como elogio — ficou ecoando na minha cabeça. E, como todo elogio inesperado, deu aquele afago no ego. Mas logo veio a dúvida: será que havia verdade ali ou era apenas gentileza de quem me estima? Bajulação não era, isso eu garanto; porque conheço bem a personalidade do autor da frase.
Comecei então a investigar o que significa, afinal, ser “desprendido.”
Seria alguém que não dá valor ao dinheiro? Se for isso, estou fora da lista. Eu respeito o vil metal, trato-o com a consideração que ele exige e, quando aparece, recebo-o com tapete vermelho. Talvez desprendido seja quem doa até o que não tem, quem renuncia ao próprio conforto para ajudar o próximo. Também não me encaixo: nunca fiz caridade que me deixasse sem sobremesa. Só doei o que estava sobrando — e olhe lá, sem heroísmo.
Pensei nos que dão presentes fora das datas comemorativas, movidos por pura generosidade. Não me vejo aí. O prazer que sinto ao ver alguém feliz com um presente inesperado é tão grande que, se formos honestos, eu deveria ser acusado de buscar minha própria alegria. Desprendimento? Mais para investimento emocional com retorno garantido.
Aí me ocorreu uma hipótese ousada: será que desprendido é o vascaíno que aceita, com serenidade, perder para o Flamengo e ainda elogia o adversário? Se essa for a definição, estou absolvido por unanimidade. Jamais acharei normal perder para a urubuzada, mesmo que eles joguem melhor do que o Barcelona de Guardiola.
Outra possibilidade: considerar natural que um livro emprestado nunca volte. Se isso define um desprendido, então sou o oposto. Livro meu, especialmente se for Guimarães Rosa ou Graciliano Ramos, só sai de casa com contrato, testemunha e talvez até seguro. E, se não voltar, eu sofro como se tivesse perdido um parente ou amigo muito querido.
Fui ao dicionário em busca de luz e encontrei sinônimos como abnegação, desapego, desinteresse, altruísmo. Talvez eu me aproxime desse último, no sentido de me preocupar com o bem-estar alheio. Mas, convenhamos, isso é pouco para justificar o elogio como eu o entendi. Também não me vejo como exemplo de desapego, muito menos de abnegação. Tenho meus apegos, minhas manias, meus caprichos — e não abro mão deles com facilidade.
Depois de tanto matutar, cheguei a duas conclusões possíveis: ou houve um equívoco generoso, ou meu interlocutor, tomado por um súbito impulso de afeto, escolheu enxergar em mim uma virtude que talvez eu não possua em estado puro. E, como sou otimista quando me convém, fico com a segunda hipótese. Afinal, há elogios que dizem mais sobre a delicadeza de quem os faz do que sobre o mérito de quem os recebe. E esse, suspeito, foi um deles.

