“Mas quem é esse Delaroli que virou presidente da Assembleia?”, pergunta um. “Cavaliere vai ser o prefeito do Rio daqui a alguns meses? Como assim”, questiona outro. “Douglas Ruas, candidato a governador? De onde ele vem”, espanta-se um terceiro. “E esse Luciano Vieira???”. “Canella? É nome ou apelido?”.
Para quem passou anos e anos ouvindo falar (nem sempre bem, vamos admitir…) em Cabral, Picciani, Moreira Franco, Leonel Brizola e seus filhos; na família Garotinho; e outros tantos; o surgimento de uma leva de poderosos (quase) desconhecidos políticos é mesmo uma surpresa.
“A nossa elite política sempre foi bastante coesa. Mas a eleição de 2018 deu uma desorganizada”, explica Geraldo Tadeu, cientista político e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). “O Rio tem uma dinâmica própria, uma espécie de neo-chaguismo, onde todos têm o seu espaço. A eleição de Wilson Witzel mudou isso. E entrou em cena uma nova elite política, formada principalmente em torno do governador Cláudio Castro. Essa mudança foi a novidade desse período”.
Claro que Eduardo Paes (PSD), Doutor Luizinho (PP), Washington Reis (MDB), Altineu Côrtes (PL), velhos conhecidos dos fluminenses, não perderam a majestade.
Mas, hoje, dividem com jovens e até ontem, ilustres desconhecidos.
A dinastia Delaroli, de Itaboraí para o poder
Guilherme nem era o Delaroli mais conhecido da família — até o dia 3 de dezembro. De um vice-presidente apagadinho, foi alçado ao comando da Assembleia Legislativa em consequência da prisão e, depois, do afastamento, de Rodrigo Bacellar (União).
Figura discreta, o agora presidente em exercício da Assembleia era mais conhecido como o irmão do ex-deputado federal e prefeito de Itaboraí no segundo mandato, Marcelo Delaroli; e como pai de João, o vereador mais votado da cidade — e presidente da Câmara.

Marcelo aliás, é tido como um dos heróis do PL.
“Com Marcelo Delaroli, tivemos a maior vitória em um município com mais de 200 mil habitantes na disputa PL x PT. Marcelo foi reeleito com 93,79% e é, certamente, uma das estrelas mais promissoras da política no Rio e no Brasil. Para ele, o céu é o limite”, diz Bruno Bonetti, presidente municipal do PL.
É bom matricular os desavisados: Itaboraí é mais que uma cidade conhecida por um complexo petroquímico inacabado e pela venda de cerâmica a caminho da Região dos Lagos. Vêm da cidade da Região Metropolitana com cerca de 224 mil habitantes os principais diretores administrativos da Assembleia Legislativa de hoje.
Todos nomeados por Delaroli.
A dinastia Vieira, em três instâncias de poder
O deputado federal Luciano Vieira (PSDB) também foi o segundo da família a se aventurar no mundo da política. O primeiro, Leo Vieira (PL), se elegeu deputado estadual em 2018 e manteve o posto em 2022. Em 2024, conquistou a Prefeitura de São João de Meriti. E, aí, já com a ajuda do mais novo, que começou depois e ultrapassou o veterano em fama — e poder.
Luciano ainda nem completou o primeiro mandato como deputado federal, mas já conseguiu a presidência estadual do PSDB, vencendo a queda-de-braço com tucanos emplumados; é conhecido por não precisar marcar hora para falar com o presidente da Câmara, Hugo Motta (REP-PB); e ainda atrai a inveja dos coleguinhas por ter amigos nos andares superiores da República.
Mais elite política, impossível.

E, agora que Flávio Bolsonaro (PL) abandonou o projeto da reeleição para entrar na briga pela Presidência da República, Luciano se coloca como um aspirante à vaga deixada pelo moço na chapa da direita ao Senado. Com forte base eleitoral na Zona Norte do Rio, mais precisamente na Pavuna e adjacências, o moço é um conhecido trator na política.
Em 2024, elegeu a irmã, Helena, vereadora na capital.
Cavaliere, o vice e futuro prefeito do Rio
O jovem advogado Eduardo Cavaliere, agora com 31 anos, foi apresentado ao prefeito Eduardo Paes (PSD) pelo seu professor na faculdade de Direito da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o então procurador do município Gustavo Schimidt. O rapaz largou tudo em 2018 para trabalhar na campanha de Paes ao governo do estado — e amargou ao seu lado a derrota para o ex-juiz Wilson Witzel.
Cavaliere, então, buscou outras oportunidades no setor privado e passou mais uma temporada na China, em 2019, para onde já havia feito um intercâmbio durante a graduação.
Ao retornar ao Brasil, fundou a Gabriel, uma startup de videomonitoramento que presta serviços de segurança pública. A empresa conseguiu captar R$ 9 milhões alocados em um fundo de investimentos composto pelas empresas Canary, Norte e Globo Ventures, começou a operar com câmeras no Leblon, e ganhou o mundo com um acordo de cooperação técnica firmado com a Polícia Civil do Rio e parcerias com a Polícia Militar, além de prestar serviços em bairros paulistanos.
Pouco menos de um ano depois, Cavaliere estava de volta à política. Em 2020, de participou ativamente da campanha de Paes à prefeitura. Com a vitória, foi convidado a assumir a Secretaria Municipal de Meio Ambiente — cargo que o próprio Paes exerceu na 2ª gestão de César Maia (2001-2009).
Em 2022, conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa com 33.688 votos. Prestigiadíssimo, voltou ao executivo em janeiro de 2023, já como o poderoso secretário-chefe da Casa Civil.

Na campanha de 2024, derrubou os favoritos Pedro Paulo, Carlo Caiado e Guilherme Schleder e ganhou o posto de vice de Eduardo Paes. Será o próximo prefeito do Rio, quando o mandachuva da cidade se licenciar para disputar, de novo, o governo do estado.
Não à toa, dizem que Paes reconhece no rapaz a sua própria trajetória. Cavaliere usa até roupas parecidas com a do seu mentor político.
De São Gonçalo para uma das secretarias mais poderosas do estado
Filho do prefeito de São Gonçalo, Capitão Nélson (PL), o deputado estadual de primeiro mandato Douglas Ruas é considerado um talento político em ascensão. E, embora há até pouco tempo fosse apenas um candidato à releição, de olho na presidência da Assembleia Legislativa, foi convencido a disputar o governo do estado. Até o senador Flávio Bolsonaro (PL), o representante da família no Rio, apoia a ideia.
Douglas é a maior das apostas do presidente estadual do PL, Altineu Côrtes. Policial civil, hoje secretário estadual das Cidades, vem sendo preparado há tempos para fazer carreira na política do Rio. A sua secretaria teve orçamento robustos e projetos estruturados para espalhar seu nome pelo estado. O resultado é que, enquanto passa como desconhecido pela capital, o moço é quase uma celebridade da política no Leste Fluminense (São Gonçalo, Itaboraí e arredores) e no interior.

Embora resistente à ideia, é possível que Douglas seja o candidato do PL ao governo quando Cláudio Castro renunciar ao cargo para disputar uma vaga no Senado. O mandato-tampão, dizem os correligionários, ajudaria a pavimentar o caminho para outubro.
Só para constar: em 2022, ele foi o segundo deputado estadual mais votado do Estado do Rio (entre todos os candidatos, não só os do PL), com 175 977 votos.
Canella, o gigante da Baixada
Nascido Márcio Correia de Oliveira, o prefeito de Belford Roxo ganhou o apelido de Canella na infância, porque era um garoto muito alto, magro e “caneludo” (com pernas finas e compridas). O gigante da Baixada Fluminense foi eleito vereador de Belford Roxo mais votado em 2012. Dois anos depois, conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa pelo PSL — partido que deu origem ao União Brasil, onde ele é tido como um dos mais antigos e leais aliados do presidente Antônio Rueda.
Em 2022, com 181.274 votos, ficou em primeiro lugar na disputa por uma vaga de deputado estadual. Na campanha, rompeu com o então prefeito de Belford Roxo, Waguinho (Republicanos), de quem era aliado até então. Waguinho apoiou a reeleição do presidente Lula (PT); e Canella, Jair Bolsonaro (PL).

Dois anos depois, Canella disputou a prefeitura de Belford Roxo e venceu Matheus, sobrinho e candidato de Waguinho à sua sucessão. No comando da cidade da Baixada, Canella conquistou forte apoio popular com ações como “Barricada Zero” e o forte uso das redes sociais.
Se lançou candidato ao governo do estado, mas está mais cotado para uma vaga na disputa pelo Senado. Em qualquer posto que estiver, já é considerado um dos mandachuvas na elite política do Rio — em especial, na Baixada Fluminense.

