Desde a primeira infância que gosto de viajar. O início limitado ao circuito Garanhuns, São Bento do Una, Pesqueira, Caruaru e Recife, foi aumentando com a idade e, posteriormente, com a melhoria das condições financeiras. As distâncias foram aumentando e hoje, acredito, gastei a maioria do dinheiro que ganhei com hotéis, transportes, passeios e excursões. Zero arrependimento.
Após conhecer o Brasil quase todo e meia centena de países, alguns visitados por várias vezes, descobri que sou tremendamente invejoso. Morro de inveja quando alguém vai viajar. Para onde? Para qualquer lugar. Sempre fico querendo ir também.
Sem distinção, gostei de todas as minhas viagens. Algumas gostei mais e repetiria. Outras gostei menos, mas também repetiria. Lugares ou cidades ricas ou pobres, perto ou distantes, no Brasil ou no exterior, sempre há alguma coisa interessante e indelével. Às vezes é uma paisagem ou uma comida. Pode ser um odor, uma pessoa, ou um acontecimento. Sempre fica uma lembrança com sabor de quero mais.
Uma pergunta que escuto com muita frequência é “se tivesse que escolher um único lugar para revisitar, qual seria?”
A resposta é praticamente impossível, porque seria comparar coisas muito diferentes. Como posso comparar histórias, culturas, paisagens, comidas, conforto, acesso, simpatia/antipatia dos povos, sem esquecer de considerar o meu próprio estado de espírito e, talvez o fator mais importante, os companheiros nas viagens?
Poderia ser Bhaktapur, no Nepal, ou a Muralha da China. Quem sabe Veneza, Recife ou Aveiro, em Portugal? Lago Michigan, em Chicago ou Ha Long Bay, no Vietnã? Lisboa, Copenhague ou New York? Muito complicado. A mineira Tiradentes ou a cosmopolita Viena? Poderia ser a Cracóvia, ou Dubrovnik, mas Taormina, na Sicília, seria uma boa escolha. Fernando de Noronha poderia disputar com as ilhas Phi Phi, na Tailândia, ou com as muitas ilhas gregas. E Siem Reap, com seu magnifico templo Angkor Wat? As noites do French Quarter, em New Orleans, ou o Baixo Gávea? Como decidir entre as incomparáveis belezas do Rio de Janeiro, San Francisco e Hong Kong, as três com baías, praias, montanhas e florestas? Impossível traçar qualquer paralelo entre o deserto do Atacama e as cataratas de Foz do Iguaçu. O Pathernon, em Atenas, ou a Cidade Proibida, em Pequim? Quem sabe as pirâmides Teotihuacan, no México? Escolher: Cidade do Cabo ou a gélida Estocolmo? O parque Euclides Dourado, em Garanhuns, disputaria com norueguês Vigeland Park? E a praça Vermelha moscovita seria mais interessante do que a Veríssimo de Melo, em Macaé? Que tal comparar o lago Garda, no Veneto, com o açude Velho de São Bento do Una? A grandiosidade de Berlim ou a beleza singela de Talin, na Estônia? A Capela Sistina ou o Duomo de Milão seriam páreo para a mesquita de Abu Dhabi, sem esquecer as simplicidades da capela da Pampulha ou da catedral de Brasília? Ah, e os mausoléus de Ho Chi Min, Evita Peron, Lenin, Tancredo Neves ou Kennedy, cada um com a sua história? Como não comparar a feira de Caruaru com o mercado de Marrakech? As ruínas de Éfeso ou a modernidade de Xangai? E Barcelona, como esquecer Barcelona? E Vancouver? O Quincy Market de Boston? Ah, não esquecer o Mercado San Miguel, em Madri para compará-lo com o São José, em Recife. Não posso deixar de lembrar dos rios Sena, Tâmisa, Solimões, Mekong, Danúbio, Yang-Tsé, Reno, Volga, Douro e Rhone, todos muito bonitos, mas nenhum é mais belo do que o rio Capibaribe que se une ao Beberibe para formar o oceano Atlântico. E as chatíssimas eficiências de São Paulo e Milão?
Impossível cotejar tudo isso sem considerar quando, como, por quanto tempo e, principalmente, com quem estive naqueles lugares.
Diante de tantas dúvidas, pensei muito, analisei e comparei o comparável e o incomparável. Na dúvida, coloquei todas as opções em uma urna imaginária. Enfiei a mão, misturei bem e puxei uma: Machu Pichu foi sorteado. Aceitei de bom grado, mas acrescentei “ao entardecer”. É um barato. Ao entardecer os turistas saem e só permanecem os hóspedes do único hotel. Repentinamente, tudo aquilo fica para você e sua mulher, sozinhos. As ruínas são totalmente suas. O sol vai indo embora, o friozinho vai chegando e algumas lhamas, curiosas, se aproximam (seriam lhamas ou incas reencarnados e ciosos de sua cidade?). A noite chega e, já escuro, vocês voltam para o hotel ainda seguidos pelos dóceis animais. Jantar com velas e um bom vinho. Um piano completa o nirvana.
“E um último e único país?”
Aí foi fácil demais: sem nenhuma dúvida, a Itália alcança rapidamente o topo no meu pódio particular.
Mas, se não puder ser, revisitar o Vietnã me deixaria muito satisfeito.
OBS – Relendo o texto percebi que nunca escrevi algo tão exibicionista. Daí o título.

