Corria o ano de 1989. Eu e mais três colegas, executivos da Petrobras, fomos participar de uma reunião de trabalho na sede da Shell, em Haia, na Holanda. Trabalho intenso, assuntos importantes, língua estrangeira, concentração constante. Foram quatro dias exaustivos, porque as noites, no hotel, eram gastas tratando das estratégias negociais do dia seguinte. As reuniões foram encerradas, numa sexta-feira, com um jantar que nos foi oferecido pelos anfitriões.
Com o voo da volta marcado para o domingo à tarde, resolvemos usar o sábado livre para conhecer a cidade, da qual só sabíamos ter sido palco da brilhante atuação do nosso Rui Barbosa, na Conferência de Paz em 1907, quando, pregando a igualdade entre as nações, defendeu os interesses do Brasil e da América Latina. Mas, deixemos a “Águia de Haia” e voltemos ao nosso relato.
No sábado, logo cedo, contratamos um guia local para um “sighseeing”, pensando em ocupar o dia inteiro. Comprovando a nossa ignorância, a cidade mostrou-se tão pequena que antes do meio-dia já não nos restava nada para conhecer, salvo imitar os nativos e tomar sol deitados em algum gramado. Foi então que o guia nos sugeriu ir para Roterdã, conhecer um dos maiores portos do mundo. Aceitamos. Em Roterdã, depois de ficar impressionados com a atividade portuária e, principalmente, com a infraestrutura do retroporto, fomos para o centro da cidade. Lá, vendo que estávamos muito perto da estação ferroviária, e sendo informados da existência de trens para Haia de hora em hora, dispensamos o guia. Almoçamos e ficamos “baratonteando”, percorrendo ruas que impressionaram pela limpeza e tranquilidade.
No final da tarde, como combinado, fomos para a estação dos trens. Ao adentrarmos, um dos colegas viu em um painel luminoso que o próximo trem para Haia partiria as 17h. Já era 16:55h. Sabedores da pontualidade daqueles trens, corremos para um guichê e, mais gesticulando e apontando do que falando, conseguimos nos fazer entender e compramos os nossos bilhetes. Acelerados como uns loucos, entramos no vagão mais próximo alguns segundos antes das portas se fecharem.
A viagem curta, prevista pra durar cerca de 30 minutos, transcorria normalmente com poucos passageiros, quando adentrou ao vagão um fiscal, já idoso, com pose de dono do trem, uniformizado como se um general fosse.
Sem entender uma palavra de holandês, percebemos que ele solicitava os tíquetes aos passageiros, examinava-os atentamente, e perfurava-os antes de devolvê-los. Ao se aproximar da gente já encontrou três braços estendidos entregando os benditos bilhetes. O general olhou para eles, enrubesceu e, apoplético, alteou a voz e disparou alguns palavrões de modo tão grosseiro que que não precisávamos entender a língua local para perceber os insultos. Algo de muito grave estava acontecendo. Insistentemente ele apontava para a porta de ligação entre os vagões, dando a entender que devíamos sair dali. Diante da nossa perplexidade, ele amassou os tickets e os jogou no chão, deu meia volta e, ainda furibundo, saiu do vagão. Certamente as nossas caras refletiam um misto de surpresa e espanto, de tal forma que outro passageiro, um senhor educadíssimo, se dirigiu ao nosso grupo e perguntou na língua local:
– Vocês falam holandês?
Diante do nosso silêncio, ele prosseguiu:
– Entendem inglês?
– Yes, respondemos em uníssono.
Então, em um inglês carregado de sotaque, ele explicou:
– Acho que vocês não entenderam nada. Por favor, desculpem a falta de educação do fiscal, mas ele estava certo. Vocês estão errados. Os seus bilhetes são para os vagões da primeira classe e este aqui é da segunda classe, bem mais barato. Portanto, vocês devem trocar de vagão imediatamente, sob pena de serem severamente multados.
Incrédulos, começamos a rir entendendo que, definitivamente, não estávamos no Brasil. E aquele gentil senhor deve estar até hoje sem entender por que aqueles gringos malucos riram tanto.

