Os ensaios técnicos das escolas de samba do Grupo Especial começam neste fim de semana na Marquês de Sapucaí com uma das maiores mudanças estruturais do carnaval carioca nas últimas décadas.
Trata-se da estreia de um novo sistema de som digital, que vai aposentar os tradicionais carros de som e promete transformar a dinâmica dos intérpretes na avenida.
Os testes do novo sistema acontecem em treinos abertos ao público, com entrada gratuita, entre os dias 23 de janeiro e 8 de fevereiro.
Cada escola fará dois ensaios técnicos no Sambódromo, em estrutura idêntica à dos desfiles oficiais, com iluminação, operação de pista e sonorização em pleno funcionamento. A expectativa da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) é que a nova tecnologia resolva problemas históricos de falhas de áudio, alvo de queixas recorrentes de diretores de harmonia e intérpretes.
Para viabilizar a mudança, o Sambódromo passou por obras que incluíram a abertura de canaletas em dez pontos ao longo da avenida. Nessas calhas foram embutidos os cabos do novo sistema de som, eliminando os fios aparentes e aposentando os carros de som usados desde a inauguração da Passarela, em 1984.
Segundo o presidente da Liesa, Gabriel David, o projeto vai além da troca de equipamentos e altera a própria lógica dos desfiles.
“Sabemos dos desafios na sonorização da Sapucaí. Por isso, realizamos um amplo estudo, que teve a participação direta dos profissionais das escolas de samba. Muito mais do que uma simples troca no som, esse novo modelo envolve mudança de engenharia, de equipamentos e da própria dinâmica na avenida. Os cantores vão poder ficar mais soltos, sem precisar estar colados a um carro de som, como funcionava até o ano passado. Sabemos que é um processo longo, mas que tem recebido muito apoio dos sambistas”, afirmou Gabriel David.

Com o novo sistema, os intérpretes passarão a acompanhar o ritmo das baterias por meio de fones de ouvido e utilizarão microfones direcionais, semelhantes aos usados em grandes shows internacionais. Sem os cabos, poderão circular por diferentes pontos da escola, o que amplia as possibilidades de performance, mas também exige adaptação.
A tecnologia foi apresentada oficialmente às agremiações no fim de novembro, durante evento na Cidade do Samba, dentro das comemorações do Dia Nacional do Samba. Os ensaios técnicos servirão como testes finais antes do Carnaval 2026.
Outra novidade do calendário é a abertura da programação pelos desfiles das escolas de samba mirins. Pela primeira vez, elas antecedem os treinos do Grupo Especial em três datas diferentes, reforçando o papel dessas agremiações na formação de novos sambistas.
Homenagens ganham destaque no carnaval 2026
Além da estreia do novo sistema de som, o carnaval 2026 também será marcado por uma série de homenagens a personalidades da cultura, da literatura, da religiosidade e da política brasileira, espalhadas entre o Grupo Especial e a Série Ouro. Ao todo serão 16 tributos.
A Imperatriz Leopoldinense abre a temporada de tributos no Grupo Especial com um enredo dedicado a Ney Matogrosso. O artista tem acompanhado de perto a preparação do desfile e será retratado a partir de seus personagens mais emblemáticos, em um enredo que aposta na transgressão estética e na força performática de sua obra.

Na Mocidade Independente de Padre Miguel, a homenageada é Rita Lee (1947- 2023). Com o enredo “Rita Lee – A padroeira da liberdade”, a escola leva à Sapucaí a trajetória da cantora como símbolo de irreverência, autonomia e ruptura de padrões.
A Viradouro fará uma homenagem em vida ao mestre de bateria Ciça, figura central da identidade da escola. O homenageado desfilará à frente da bateria, seu posto histórico, enquanto o enredo revisita sua trajetória por diferentes agremiações e seu papel na construção do som do carnaval contemporâneo.
Já o Salgueiro presta tributo à carnavalesca Rosa Magalhães, maior campeã da era Sambódromo. O desfile vai revisitar elementos marcantes de seus trabalhos e destacar sua metodologia baseada em pesquisa, rigor histórico e sofisticação estética.

Na Unidos da Tijuca, a literatura ganha protagonismo com Carolina Maria de Jesus. A escola promete apresentar a autora de Quarto de despejo para além do livro mais conhecido, ressaltando sua produção artística múltipla e uma narrativa mais solar sobre sua vida e obra.
Pela Série Ouro, o Reizinho de Madureira homenageia Conceição Evaristo, com um enredo inspirado no conceito de “escrevivência”. A proposta não é biográfica, mas centrada na força literária e simbólica de sua obra.

A Acadêmicos de Niterói, estreante no Grupo Especial após o título da Série Ouro, escolheu homenagear o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O enredo, anunciado em meio a um ambiente de polarização política, já provoca debates antes mesmo de chegar à avenida.
Outra homenagem musical vem da Série Ouro, com a Unidos de Bangu, que levará à Sapucaí a trajetória de Leci Brandão, conectando a artista à sua história nos subúrbios cariocas e à formação cultural do samba.
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As outras homenagens do Carnaval 2026
Outras oito escolas também apostam em enredos biográficos ou temáticos. A Mangueira aborda o universo afro-indígena a partir da figura de Mestre Sacaca, referência amazônica na medicina tradicional. A Portela viaja ao Sul do país para contar a história do Príncipe Custódio, liderança espiritual afro-gaúcha.
Na Série Ouro, a Unidos do Jacarezinho homenageia Xande de Pilares, enquanto a Estácio de Sá leva à Avenida o líder espiritual Tata Tancredo. A Unidos de Padre Miguel aposta na guerreira indígena Clara Camarão; a Botafogo Samba Clube celebra o paisagista Roberto Burle Marx; e o Arranco do Engenho de Dentro resgata a trajetória de Maria Eliza Alves dos Reis, a primeira palhaça negra do Brasil, conhecida como Palhaço Xamego.
Fique por dentro dos ensaios técnicos do carnaval 2026
Calendário dos ensaios técnicos – Rio Carnaval 2026
Local: Sambódromo da Marquês de Sapucaí
Entrada: gratuita
Sexta-feira – 30 de janeiro
• 21h – Acadêmicos de Niterói
• Mocidade Independente de Padre Miguel
• Estação Primeira de Mangueira
• Unidos da Tijuca
Sábado – 31 de janeiro
• 18h – Escolas de Samba Mirins (3 agremiações)
• 20h – Unidos de Vila Isabel
• Acadêmicos do Salgueiro
• Paraíso do Tuiuti
• Portela
Domingo – 1º de fevereiro
• 17h30 – Escolas de Samba Mirins (3 agremiações)
• 19h – Unidos do Viradouro
• Imperatriz Leopoldinense
• Acadêmicos do Grande Rio
• Beija-Flor de Nilópolis
Sexta-feira – 6 de fevereiro
• 21h – Acadêmicos de Niterói
• Mocidade Independente de Padre Miguel
• Estação Primeira de Mangueira
• Unidos da Tijuca
Sábado – 7 de fevereiro
• 18h – Lavagem da Passarela
• Em seguida:
• Unidos de Vila Isabel
• Acadêmicos do Salgueiro
• Paraíso do Tuiuti
• Portela
Domingo – 8 de fevereiro
• 18h – Escolas de Samba Mirins (2 agremiações)
• 19h – Unidos do Viradouro
• Imperatriz Leopoldinense
• Acadêmicos do Grande Rio
• Beija-Flor de Nilópolis

