Antes de ser presa por fraude e exonerada da Casa Civil do estado nesta quarta (03), a falsa advogada Michele Coelho Montenegro foi escritora. A investigada — que integrava os quadros do governo estadual sob o nome “Mia Montenegro” — publicou, em 2022, um livro inspirado na própria vida em que se classifica como “uma jovem de classe média alta que terminou presa após enfrentar relacionamentos e amizades abusivas” e que, por fim, deu “a volta por cima”.
Batizado de “O gato e a uva: o caminho de volta do inferno”, o livro é definido pela autora como um “thriller autobiográfico” e foi publicado quase três anos antes de ela ser nomeada como assessora na Casa Civil estadual, em 2025.
Nos trechos da obra disponíveis online, Michele narra uma infância de conforto material, mas marcada por um ambiente familiar disfuncional. Ela escreve que teve “todo tipo de instrução, viagens e conforto”, mas “nunca tive um ambiente familiar saudável”. Também tenta explicar a própria queda como fruto de uma sequência de escolhas, paixões e autoenganos.
‘Mia’ já tinha sido condenada por estelionato
Na época do livro, ela já acumulava acusações antigas por outros casos. Só no Rio, ela respondia na Justiça por outros 14 crimes e já tinha sido condenada em um processo por estelionato em 2008. De acordo com informações do portal “JusBrasil”, Michele chegou a ser sentenciada a três anos de reclusão em regime semiaberto por inadimplência no pagamento de um apartamento que alugou por um ano.
Mais tarde, ela foi absolvida em outro processo ligado à mesma história, por fraude na emissão de cheques. O caso já foi arquivado.
Ao todo, Michele aparece em pelo menos 30 processos nas esferas cível e criminal nos estados do Rio e de São Paulo. Na maioria deles, ela é ré.
Falsa advogada se oferecia para intermediar venda de obras de arte
Nesta quarta (03), mais de três anos após narrar, no livro, sua história de “superação”, a falsa advogada foi alvo da Polícia Civil na Operação Tela Falsa. Agentes investigam um esquema que pode ter provocado prejuízo de até R$ 10 milhões com a apropriação de obras de arte com elevado valor comercial.
Segundo as denúncias, ela se apresentava donos de antiquários como advogada e herdeira, e se oferecia aos proprietários das obras para intermediar a venda dos quadros. Em seguida, ela tentava negociar as peças como se fosse a proprietária delas. Entre as peças apropriadas, estão obras dos artistas Sérgio Camargo e Ivan Serpa.
As investigações apontam uso de cheques sem fundos e comprovantes bancários falsos para fraudar pagamentos.
Apesar de se intitular como advogada, Michele não tem registro no sistema da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/RJ). O Ministério Público afirma que ela constava como “estagiária” no site da OAB, mas esse registro também não está mais ativo.
Michele recebia salário de R$ 16 mil na Casa Civil do estado
Conforme revelou o TEMPO REAL, Michele foi nomeada nos quadros do governo do estado em 6 de outubro de 2025 sob o nome de “Mia” com o mesmo CPF. Ela recebia salário bruto mensal de cerca de R$ 16 mil. Após tomar conhecimento do caso, a gestão atual do governo do estado exonerou Michele da secretaria de Casa Civil.

