A disputa pelo governo do Estado do Rio já movimenta valores expressivos nas redes sociais, embora a propaganda eleitoral propriamente dita só esteja autorizada a partir de 16 de agosto. Entre 12 de abril e 10 de julho, nove páginas de políticos incluídos no levantamento gastaram pelo menos R$ 498.248 em anúncios classificados pela Meta como relacionados a temas sociais, eleições ou política.
O período analisado compreende 90 dias.
A liderança é de André Português, ex-prefeito de Miguel Pereira e pré-candidato ao Palácio Guanabara. A página do político registrou R$ 402.114 em gastos no período — o equivalente a 80,7% de todo o valor identificado entre os seis maiores anunciantes.
Português gastou praticamente oito vezes mais que Anthony Garotinho, o segundo colocado, e mais de quatro vezes a soma dos outros cinco políticos com valores detalhados.
Curiosamente, Português e Garotinho disputam a legenda do Partido Republicanos para a eleição ao governo do estado.
O levantamento foi realizado com dados públicos da Biblioteca de Anúncios da Meta, que reúne publicidade veiculada no Facebook, Instagram e em outras plataformas do grupo. Os valores não permitem saber quanto foi aplicado especificamente em cada rede.
Ranking dos gastos
Acompanhe os gastos dos pré-candidatos ao governodo estado.
| Página | Gasto total | Entregue no RJ | Parcela no RJ |
|---|---|---|---|
| André Português | R$ 402.114 | R$ 374.306 | 93,1% |
| Anthony Garotinho | R$ 50.269 | R$ 47.636 | 94,8% |
| Eduardo Paes | R$ 18.038 | R$ 16.780 | 93,0% |
| André Marinho | R$ 12.956 | R$ 12.567 | 97,0% |
| Douglas Ruas | R$ 9.498 | R$ 9.484 | 99,9% |
| William Siri | R$ 5.373 | R$ 5.062 | 94,2% |
| Wilson Witzel | até R$ 100 | não detalhado | — |
| Cyro Garcia | até R$ 100 | não detalhado | — |
| Juliete Pantoja 80 | até R$ 100 | não detalhado | — |
Somados, os seis anunciantes com valores exatos aplicaram R$ 498.248. Desse total, R$ 465.835, ou 93,5%, foram destinados à entrega de publicidade para contas localizadas no Estado do Rio.
O gráfico geral da Meta apresenta Wilson Witzel (Democrata), Cyro Garcia (PSTU) e Juliete Pantoja (UP) com “R$ 0”, mas as páginas individuais informam gastos de até R$ 100.
Por isso, não é possível afirmar que os três não desembolsaram nenhum valor.
Português gasta R$ 4,4 mil por dia
A média de investimento da página de André Português foi de aproximadamente R$ 4.468 por dia durante os 90 dias analisados.
O valor de R$ 402 mil é quatro vezes superior aos R$ 96.134 gastos, somados, por Garotinho, Eduardo Paes (PSD), André Marinho (Novo), Douglas Ruas (PL) e William Siri (PSOL).
A diferença também chama atenção porque Português não aparece na liderança das pesquisas eleitorais conhecidas, mas assumiu uma dianteira amplamente desproporcional na compra de exposição digital. Sua pré-candidatura ao governo do estado foi lançada formalmente em maio.
Na sequência aparece Garotinho, com R$ 50.269. Paes, apontado como líder em levantamentos eleitorais recentes, surge apenas em terceiro lugar no investimento digital do período, com R$ 18.038.
No caso de Paes, a Biblioteca da Meta identifica o Partido Social Democrático — PSD como responsável pelo pagamento. Nas páginas de Português, Garotinho, Marinho, Ruas e Siri, os anúncios aparecem majoritariamente com o próprio nome do político no campo destinado ao pagador.
Meta aponta anúncios sem rótulo
O levantamento revelou ainda publicidade que, segundo a própria Meta, foi veiculada sem o rótulo que informa quem pagou pelo anúncio.
Na página de André Português, R$ 1.704 foram associados a anúncios sem identificação do pagador. Na de André Marinho, foram R$ 370. No caso de Douglas Ruas, a plataforma registra valor de até R$ 100 sem rótulo.
A ausência dessa identificação não permite concluir automaticamente que houve uma infração eleitoral. O rótulo da Meta é um mecanismo da própria plataforma, e seria necessário examinar cada anúncio, sua contratação, seu conteúdo e a identificação inserida na peça.
O dado, entretanto, é relevante porque a regulamentação do Tribunal Superior Eleitoral determina que o conteúdo impulsionado durante a pré-campanha tenha identificação inequívoca e que o provedor mantenha um repositório público com os dados da contratação.
TSE permite impulsionamento, mas exige moderação
O pagamento para ampliar o alcance de publicações é permitido durante a pré-campanha. A autorização, no entanto, está condicionada ao cumprimento simultâneo de quatro exigências:
o anúncio deve ser contratado diretamente com a plataforma por partido, federação ou pessoa que pretenda concorrer; não pode conter pedido explícito de voto; os gastos precisam ser moderados, proporcionais e transparentes; e devem ser respeitadas as demais regras aplicáveis ao impulsionamento eleitoral.
A legislação não estabelece um teto específico, em reais ou em percentual, para os anúncios realizados antes do início oficial da campanha. Isso significa que o valor elevado, isoladamente, não caracteriza irregularidade. A Justiça Eleitoral pode, contudo, avaliar se o investimento foi compatível com a moderação exigida pela norma e se produziu desequilíbrio na disputa.
Para efeito de comparação, o limite oficial de gastos de uma candidatura ao governo do estado no primeiro turno é de R$ 17.788.806,16. O TSE decidiu manter em 2026 os mesmos tetos utilizados nas eleições de 2022.
Os R$ 402.114 registrados pela página de André Português correspondem a cerca de 2,26% de todo o teto permitido para uma campanha ao governo estadual. A comparação serve apenas para dimensionar o investimento: o percentual não funciona como limite ou salvo-conduto para a pré-campanha.
Dados não equivalem à prestação de contas
Os números da Meta não substituem documentos fiscais ou prestações de contas eleitorais.
A categoria utilizada pela empresa é ampla e inclui anúncios sobre “temas sociais, eleições ou política”. Portanto, sem a análise individual das peças, não é possível afirmar que cada real foi utilizado diretamente para promover uma pré-candidatura.
A biblioteca também informa o pagador declarado na plataforma, mas não revela, no relatório geral, a origem final dos recursos, a conta bancária utilizada ou os documentos fiscais da contratação.
Ainda assim, os dados oferecem uma fotografia clara da estratégia adotada no início da disputa: enquanto a maioria dos pré-candidatos investiu entre R$ 5 mil e R$ 50 mil, Português abriu uma frente de quase meio milhão de reais e passou a dominar, com ampla vantagem, a compra de visibilidade política nas redes da Meta.

