A SuperVia, que administrou os trens no Rio por mais de 27 anos, deixou para os sucessores na concessão uma fila de credores, em uma dívida cujo valor total ainda é desconhecido. Somente referente ao mês de maio, o débito com fornecedores é de cerca de R$ 15 milhões.
Sem o pagamento, os fornecedores podem deixar de prestar serviços essenciais. Entre as empresas vítimas do “calote” estão as responsáveis pela fabricação de peças, restauração de vagões, sinalização, bilhetagem eletrônica e gestão de pessoal de apoio e segurança.
A maior dívida conhecida é de R$ 1,9 bilhão com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), fruto de financiamentos. Porém, as maiores preocupações são as dívidas com os fornecedores que garantem o funcionamento diário do transporte.
A TrensRJ, empresa que herdou as dívidas da SuperVia, enviou uma carta à Secretaria estadual de Transportes (Setrans) comunicando a existência das dívidas. No documento, a nova operadora de trens no Rio pede que sejam adotadas providências para regularizar a situação e alerta que esse cenário pode provocar interrupções em serviços prestados por terceirizados.
Auditoria técnica nos trens e estações revela situação crítica
Para diagnosticar a situação da malha ferroviária, a Trens-RJ contratou a Companhia Paulista de Trens Urbanos (CPTM) para realizar um levantamento. A pesquisa começou em junho. A herdeira da antiga concessão da SuperVia passou a operar no dia 30 de maio.
A expectativa é de que a CPTM conclua a auditoria técnica em 60 dias, mas cinco problemas significativos já foram identificados:
- Frota menor que a usada pela SuperVia, totalizando 48 composições a menos, uma diferença explicada pela existência de trens obsoletos ou inservíveis, que foram tirados de circulação
- Detritos e lixo acumulados ao longo das estações
- Estações sem acessibilidade
- Altos custos de segurança
- Obras inacabadas
Diante da degradação das estações, um dos problemas de acessibilidade é a ausência de escadas rolantes em funcionamento, por falta de peças de reposição.
Resta um: apenas presidente da agência reguladora de transportes do Rio continua no conselho
Além da dívida deixada pela SuperVia, a operação dos trens no Rio ainda enfrenta falta de fiscalização. O motivo é uma crise na Agência Reguladora dos Serviços Públicos Concedidos de Transportes Aquaviários, Ferroviários e Metroviários e de Rodovias (Agetransp), que não pode tomar decisões sobre fiscalização por falta de conselheiros.
O conselheiro-presidente, Adolpho Konder, é o único dos cinco conselheiros que permanece ocupando o cargo. Desde junho, Konder tem elaborado ofícios para detalhar a situação — com o governador em exercício, Ricardo Couto, entre seus destinatários.
Em um alerta, ele esclareceu que Vicente Loureiro e o delegado aposentado Fernando Moraes estavam com seus respectivos mandatos no conselho chegando ao fim entre o fim de junho e o início de julho. Sem o quórum mínimo necessário para a realização de sessões deliberativas e para a tomada de decisões de competência colegiada, os transportes do Rio podem ficar comprometidos.
A função da Agetransp é “exercer o poder regulatório, acompanhando, controlando e fiscalizando as concessões e permissões de serviços públicos concedidos de transportes aquaviário, ferroviário, metroviário e de rodovias no Estado do Rio de Janeiro”.
Sem uma equipe funcionando, a situação dos trens no Rio de Janeiro mostra que o buraco pode sempre ser mais fundo.
Com informações do jornal “O Globo“.

