Naquela pequena cidade interiorana, as reuniões da Câmara de Vereadores eram imperdíveis. Às quartas-feiras, religiosamente às oito horas da noite, com as cadeiras reservadas para o público já ocupadas desde cedo, eram iniciadas as reuniões ordinárias.
Composta por sete membros, um dos quais era o presidente, a Câmara refletia com justeza o atraso e a pobreza da cidade. Semianalfabetos, na maioria, os vereadores faziam as reuniões apenas por obrigação legal, uma vez que raramente havia algum assunto importante a ser deliberado. Mesmo assim, as discussões eram sempre acirradas, mormente quando a plateia era grande.
Recordo quando um simples pedido do prefeito pleiteando aprovação da aquisição de um novo cavalo, para puxar a carroça coletora do lixo da cidade, foi motivo de inflamados pronunciamentos. Um defendeu a tese de que o cavalo existente ainda cumpria bem as suas tarefas. Outro, mostrando emoção, procurou demonstrar que seria uma ingratidão deixar o velho cavalo ao Deus dará, após tantos anos de bons serviços prestados à comunidade.
Um terceiro insinuou que, na verdade, o prefeito pretendia comprar o novo cavalo na fazenda de um amigo, sem a devida concorrência. Não faltou alguém para lembrar que o melhor seria aposentar o cavalo e a velha carroça e modernizar a coleta de lixo, adquirindo um caminhão para execução daquele serviço. Argumentou, com provas fotográficas, que o cavalo, ao fazer suas necessidades fisiológicas, mais sujava do que ajudava na limpeza da cidade.
A assistência sempre tomava partido, produzindo algazarra. O presidente da Câmara, coitado, berrava desesperadamente exigindo silêncio, sem quase nunca ser atendido.
As mais concorridas reuniões eram aquelas em que, anualmente, era votado o reajuste salarial dos servidores municipais, quase todos parentes dos vereadores ou do prefeito. Os poucos comerciantes da cidade torciam para que os aumentos fossem grandes, única forma possível de incrementar suas vendas. O restante da população sempre reclamava que, aumentando os salários dos barnabés, não sobraria dinheiro para as obras públicas e, por isso, a cidade sempre caminhava para trás.
Era preciso acabar com o empreguismo, muitos reclamavam revoltados, até que algum parente fosse contratado pela prefeitura.
Um caso exemplar que sempre me vem à mente quando assisto reuniões no Congresso Nacional foi o episódio da escolha do representante da Câmara Municipal que iria ao Primeiro Congresso Municipal Estadual, na capital. Patrocinado pelo governador, com claras intenções eleitoreiras, o evento oferecia hospedagem em hotel de primeira classe, carro com motorista à disposição, gordas diárias e passeios turísticos, provocando uma intensa disputa pela indicação do representante da cidade.
Na reunião extraordinária, convocada para decidir a indicação, o presidente da Câmara Municipal tentou fazer valer a sua posição e autoridade para ser o escolhido, com o que não concordaram os demais vereadores. O tempo esquentou e as acusações dominaram o ambiente. Os discursos foram substituídos por bate-bocas e insultos, ainda mantidos dentro da liturgia e do tratamento respeitoso que o cerimonial exigia.
— Vossa Excelência é um aproveitador! — gritava um.
— Vossa Excelência é um oportunista! — acusava outro.
— Vendido! Vossa Excelência está se vendendo ao governador! — afirmava um terceiro.
— Vendido sempre foi Vossa Excelência! — o acusado dava o troco.
Então, no auge das altercações, o presidente, irado, esmurrou a mesa e, dirigindo-se ao líder da oposição, baixou o nível. Com o indicador em riste, apelou:
— Vamos acabar com essa palhaçada de excelência pra lá, excelência pra cá. Vossa Excelência, porra nenhuma. Acabou. Para mim, Vossa Excelência não passa de um tu. E entre mim e tu, eu sou mais eu!
Hoje, quando assisto às discussões na Câmara Federal, fico cada vez mais convencido de que ali, há muito tempo, a grande quantidade de “tu” ofusca as raríssimas excelências.

