Os anos passam, os governos mudam e os ocupantes do Palácio Guanabara se sucedem. Mas algumas imagens seguem vivas na memória da população do estado do Rio de Janeiro.
Nas últimas décadas, três governadores chamaram atenção por seus deslumbramentos com o luxo. Entre restaurantes estrelados, joias das melhores grifes, charutos cubanos e eventos reservados para poucos convidados, Sérgio Cabral (MDB), Wilson Witzel (PSC) e Cláudio Castro (PL) protagonizaram cenas que atravessaram seus mandatos e ajudaram a construir momentos quase folclóricos da política fluminense.
Além dos guardanapos: joias milionárias e um cachorro que viajava de helicóptero
Talvez nenhum ex-governador tenha acumulado tantos símbolos de luxo quanto Sérgio Cabral.
Embora a imagem mais conhecida seja a da chamada “farra dos guardanapos” — quando convidados de uma festa em Paris apareceram com guardanapos de tecido amarados na cabeça —, o universo de luxo associado ao ex-governador foi bem além daquela fotografia.
As investigações conduzidas pela Polícia Federal revelaram compras milionárias de joias e relógios feitas por Cabral e sua então esposa, Adriana Ancelmo. Vieram à tona peças de marcas nacionais e internacionais, conjuntos avaliados em até R$ 1 milhão e relógios de grifes como Rolex, Cartier e Vacheron Constantin.

O luxo também aparecia à mesa. Em uma viagem a Mônaco, em 2009, Cabral foi filmado durante um jantar no restaurante mais caro do mundo, Louis XV. Ao elogiar o chef francês responsável pelo menu, Cabral decretou: “este é o melhor Alain Ducasse do mundo”.
Durante esse mesmo período em Mônaco, Cabral comprou um anel da joalheria Van Cleef & Arpels avaliado em R$ 800 mil. A joia foi paga pelo empreiteiro Fernando Cavendish e dada de presente para a então primeira-dama.
E nem mesmo o cachorro da família escapou das manchetes. Em 2013, reportagem da revista “Veja” revelou que Juquinha, o cão do então governador, também embarcava no helicóptero oficial utilizado nas viagens de fim de semana para Mangaratiba.
Em 2021, Cabral e Adriana foram condenados pelo Tribunal de Justiça (TJRJ) pelo uso indevido da aeronave oficial. No entanto, no mês passado, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulou a decisão ao entender que provas favoráveis à defesa não haviam sido devidamente analisadas.
A ‘faixa de governador’ e o ‘Clube do charuto’ de Witzel
Quando Wilson Witzel assumiu o governo em 2019, um símbolo inédito chamou atenção logo na cerimônia de posse: inspirado no modelo presidencial, ele surgiu usando uma faixa com as cores da bandeira fluminense. Segundo o próprio governo à época, a faixa foi confeccionada por desejo e iniciativa do governador.

A peça acompanhou Witzel em solenidades, inaugurações e eventos oficiais, tornando-se uma das marcas visuais de sua curta passagem pelo cargo.
Mas, além da faixa, outro elemento marcaria a passagem de Witzel no governo: o chamado “Clube do charuto”, revelado posteriormente em uma delação premiada.
Realizados inicialmente na varanda do Palácio Guanabara, os encontros semanais reuniam amigos, aliados, empresários e convidados para noites regadas a charutos cubanos, vinho e whisky. O hábito vinha dos tempos em que Witzel ainda era juiz federal, quando costumava fumar seus Cohibas no Iate Clube do Rio de Janeiro, em Botafogo, e ganhou endereço oficial após sua chegada ao governo.
Segundo relatos, as reuniões das chamadas “quintas do charuto” serviam como espaço de aproximação entre o governador e pessoas interessadas em fazer negócios com o estado. Em algumas ocasiões, os encontros migravam para o Palácio Laranjeiras, residência oficial do governador.
Witzel também protagonizou um episódio envolvendo uma hospedagem na unidade do Fasano em Angra dos Reis. Em janeiro de 2020, o ex-governador afirmou que o hotel havia cedido a hospedagem para sua família passar um fim de semana no local.
Mas declaração durou pouco. Após o Grupo Fasano negar à “Folha” ter oferecido qualquer cortesia, o governo divulgou uma nova versão, informando que a estadia havia sido paga integralmente pelo próprio governador.
Rolex, carne folheada a ouro e degustação de uísque paga por Vorcaro
Enquanto Cabral é associado aos restaurantes estrelados da Europa e Witzel às rodas de charuto nos palácios estaduais, Castro ficou marcado pelos encontros promovidos pelo banqueiro Daniel Vorcaro em Nova York.
Em 2023, Cláudio Castro participou de um jantar no restaurante do chef turco conhecido mundialmente como Salt Bae. E ele aproveitou uma das especialidades da casa: carne revestida com folhas de ouro de 24 quilates. O prato, custeado por Vorcaro — que está preso pelo escândalo do Banco Master — tem um valor estimado em R$ 60 mil.
As mensagens obtidas pela Polícia Federal mostram que esse não foi um encontro isolado. Em maio de 2024, o banqueiro convidou Castro para outro evento exclusivo em Nova York. “Só homens, serão 10 pessoas apenas”, escreveu Vorcaro. A resposta do governador foi curta: “Eu vou”.
O encontro aconteceu no Carnegie Club, tradicional lounge de Manhattan conhecido pela carta de uísques e pelos charutos. Segundo a investigação, o evento que reuniu políticos, empresários e convidados teve custo estimado em US$ 1 milhão, equivalente a cerca de R$ 5,2 milhões.
Nos últimos anos, o governador também chamou atenção pelos relógios de luxo exibidos em agendas públicas. Entre eles estavam dois modelos da Rolex e um da Cartier avaliados na faixa dos R$ 100 mil.


