O Reservatório Novo Marapicu — peça-chave da expansão do Sistema Guandu — tornou-se a prova de que a Cedae não consegue fazer grandes intervenções seguindo cronogramas e projetos com previsibilidade. O que deveria ser uma obra estratégica de engenharia transformou-se num canteiro de improvisos, aditivos milionários e prazos estourados.
O contrato original, firmado em 23 de fevereiro de 2023, previa uma execução em 900 dias, com término inicialmente agendado para 14 de agosto de 2025. Contudo, uma análise detalhada do processo revela uma sucessão de atos que desafiam a lógica da gestão pública.
Primeiro ato: a inovação à revelia
Logo no início, a contratada OECI S.A. decidiu “inovar” sem autorização formal. Em fevereiro de 2024, a fiscalização da obra emitiu uma notificação, registrando que estacas estavam sendo executadas com taxas de armadura diferentes do projeto aprovado e sem qualquer consulta prévia.
A resposta da empresa foi sintomática: alegou que os projetos já estavam no sistema antes do início da execução e que “não havia sido definido um fluxo para tratativa de consultas técnicas e alterações”.
Ou seja, a obra mudou porque, aparentemente, não havia regras claras para impedir que mudasse.
Segundo ato: o atraso de 55% e a advertência ‘branda’
Treze meses após o início, o descompasso era crítico. Na 1ª advertência (no dia 2 de abril de 2024), a Cedae constatou que apenas 1.121 metros de tubulação haviam sido assentados, contra os 2.532 metros previstos.
“Uma defasagem física de 55,73% em relação ao previsto inicialmente”.
Apesar do atraso monumental, a punição limitou-se a uma advertência com pedido de novo planejamento, sem que sanções mais severas interrompessem o fluxo do contrato.
Terceiro ato: a ‘mágica’ da nova concepção
Diante do caos, surgiu a solução: mudar o projeto inteiro. O reservatório, antes de duas células retangulares, passou a ter seis células circulares. A fiscalização defendeu a mudança citando benefícios operacionais e uma suposta economia de R$ 7,49 milhões (5,08%) em relação à versão original.
Entretanto, a “economia” veio acompanhada de uma avalanche de novos custos e complexidades: a necessidade de um muro de contraforte para contenção de aterro; a adoção do método de forma deslizante; e a inclusão de ensaios de carga e novas sondagens geológicas.
Quarto ato: o tempo explode (mais 480 dias)
Se a nova concepção prometia agilidade, o resultado foi o oposto.
O quarto termo aditivo prorrogou a obra por mais 480 dias, estendendo o prazo final para 7 de dezembro de 2026. O tempo total previsto saltou de 900 para 1.380 dias.
As justificativas incluíram desde chuvas acima da média e atrasos em licenças ambientais até a confissão de que a empresa enfrentava “descontinuidade de fluxo de caixa” antes de entrar em recuperação judicial. Com esses argumentos, o contrato foi prorrogado sob a tutela do diretor-presidente Aguinaldo Ballon e do diretor-técnico Humberto Mello.
Quinto ato: o ‘gran finale’ de R$ 296 milhões
O desfecho desta rerratificação foi o aumento do valor global. O quinto termo aditivo, publicado no Diário Oficial em 16 de março de 2026, oficializou um acréscimo de R$ 17.892.790,34. Com isso, o contrato que começou em R$ 277,8 milhões saltou para aproximadamente R$ 296,1 milhões.
O parecer jurídico da própria Cedae deixou um alerta incômodo, sugerindo que as mudanças poderiam ser interpretadas como “correção de imprecisões no projeto básico” — ou seja, falhas de planejamento. A resposta da comissão de fiscalização foi uma pérola da burocracia técnica: os fatos eram “preexistentes, porém desconhecidos”.
Ao final, o argumento que prevaleceu foi o da irreversibilidade: devido ao “estágio avançado”, paralisar a obra seria mais prejudicial do que continuar “ajustando” o contrato.
Assim, entre o gerúndio dos ajustes e o cifrão dos aditivos, o Reservatório de Marapicu segue como o monumento à imprevisibilidade da nova Cedae.
COM FÁBIO MARTINS


