No calendário contemporâneo, o 8 de março costuma vir acompanhado de flores, homenagens e discursos. Mas, no Brasil, o Dia Internacional da Mulher também continua sendo um lembrete incômodo enviado por diversos remetentes: ainda é perigoso ser mulher.
Nas últimas semanas, três episódios muito diferentes entre si expuseram a mesma estrutura de violência.
O primeiro aconteceu em Copacabana, um dos bairros mais conhecidos do país. Quatro jovens são investigados por um estupro coletivo que teria ocorrido após uma noite de festa. O caso chocou pela brutalidade, mas também pela sensação de repetição. Histórias assim voltam a aparecer com frequência perturbadora, revelando uma cultura em que a violência sexual ainda encontra terreno para acontecer.
O segundo episódio vem da política. O ator Dado Dolabella anunciou filiação ao MDB e uma pré-candidatura a deputado federal. Nada disso seria notícia se não fosse o histórico público de denúncias e condenações relacionadas à violência doméstica. A pergunta que surge é inevitável: que mensagem se transmite quando alguém com esse passado se apresenta como representante da sociedade?
A resposta veio da própria ala feminina da legenda. O MDB Mulher prepara uma representação para tentar impedir a entrada do artista no partido.
O terceiro caso expõe outra dimensão da mesma desigualdade. Em um áudio divulgado pela imprensa, o banqueiro Daniel Vorcaro, preso na última quarta (4), ameaça sua funcionária doméstica, Monique, chamando-a de “vagabunda” e dizendo que ela “deveria ser moída”. A violência ali não é apenas verbal. Ela revela a interseção entre gênero, classe e poder — a lógica de que algumas mulheres podem ser humilhadas ou intimidadas porque ocupam posições socialmente vulneráveis.
Três histórias diferentes.
Mas todas atravessadas pela mesma lógica: a de que o corpo, a dignidade e a voz das mulheres ainda são frequentemente tratados como algo menor. A violência e sua polivalência.
Enquanto esses episódios se sucedem, os números continuam lembrando o tamanho do problema. O Brasil registra milhares de casos de feminicídio e de violência doméstica todos os anos. No Rio de Janeiro, as estatísticas seguem mostrando um cenário persistente de agressões, ameaças e assassinatos de mulheres.
De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, entre 2015 e 2025, mais de vinte mil mulheres foram vítimas de violência sexual na cidade do Rio. São quase dez mulheres violadas por dia.
Talvez por isso a escritora brasileira Adriana Lunardi, uma das minhas favoritas, tenha revisitado a história da vendedora de fósforos. Aquela menina invisível para o mundo ao redor.
No Brasil, mulheres continuam sendo tratadas da mesma forma: ignoradas quando denunciam, desacreditadas quando falam, mortas quando resistem.
Enquanto isso não mudar, o 8 de março continuará sendo menos celebração e mais denúncia. É preciso agir. Como lembra a historiadora Carolina Rocha, é mais fácil mudar o rumo de um barco em movimento.

