Com o avanço da idade sempre achamos que nada mais nos surpreende; já vimos tudo! Ledo engano. Há alguns meses tomei ciência da existência dos bebês “reborn” e das suas paranoicas “mamães”. Achei que era a última coisa que me causaria espanto antes da despedida da vida. Que nada!
Ontem, liguei pra uma amiga para conversar futilidades e matar alguma saudade e estranhei que ela não tocou no nome do marido, com quem vive há mais de 20 anos um feliz casamento. Mas, discreto, nada perguntei.
Desfeita a ligação fiquei remoendo o assunto e não resisti. Justificando a curiosidade, disse a mim mesmo que tinha muita amizade e intimidade bastante para me imiscuir na vida deles. Afinal, quem sabe, se estivessem vivendo algum problema eu poderia ajudar? Financeiro, saúde, quem sabe?
Refeita a ligação, ela, quase chorando, disparou a falar quase sem respirar, e me disse que o casamento estava por um fio por conta de uma paixão arrebatadora, inimaginável, que envolveu o seu marido. Ele que sempre foi solicito, gentil e tranquilo, foi tomado por uma loucura inexplicável. Agora mal fala com ela, passa o tempo inteiro elogiando a sua rival. Só pensa “naquela coisa”. Veja a que ponto chegou. Ele já teve até a ousadia de dizer que, se nosso casamento acabar, eu posso ficar com tudo, móveis, livros, tudo mesmo, que ele só vai querer levar ela. Imagine que, outro dia, tive que trabalhar até tarde, e ao chegar em casa, ele estava dormindo, bêbado, abraçado com ela. Já cansei de ouvi-lo dizer que encontrou sua alma gêmea. Está a um passo do adultério, sinto que não vou conseguir competir. Nesse ponto da conversa, a ligação caiu. Tentei religar, sem êxito.
Ansioso, liguei para o celular do marido e fui logo perguntando o que diabos estava acontecendo, de vez que a sua mulher me pareceu arrasada com a possibilidade do rompimento matrimonial, e que ele até já ameaçara sair de casa deixando tudo pra trás, menos sua nova paixão. Seria alguma vizinha, alguma empregada doméstica, quem sabe uma bela faxineira? Morrendo de rir, ele explicou que não era nada do que eu estava pensando. A sua esposa estava falando de uma máquina de gelo recém-adquirida. E continuou:
“Foi a melhor compra da minha vida. Melhor compra! Não tem fogão, air fryer, micro-ondas, notebook ou celular. Você sabe que eu adoro beber gim e gim adora gelo. Minha vida era um inferno, acabava o gelo, a geladeira não dava conta, parava tudo pra ir comprar gelo. Agora aquela desdita acabou. Basta eu colocar água, ligar a tomada e a danada fica lá tum-tum-tum, igual à cantiga de grilo, tum-tum-tum, só cuspindo gelo, sem reclamar, sem alegar cansaço e eu, me aproveitando, só bebendo. Você não quer vir conhecê-la? Tenho um excelente gim, legitimo inglês.”
Fui.
E, com muito gelo, promovi a inusitada reconciliação.

