Aterro do Flamengo. Dia 18 de fevereiro. São 9h37. Um homem de 70 anos, bermuda clara e camisa verde está sentado, sozinho e em silêncio, num banco em semicírculo de frente para uma árvore. Ele não fica muito tempo só. As pessoas vão chegando aos poucos. Seus rostos mostram certa alegria, jovialidade e, por que não dizer, alívio. Não estão sentindo ressaca física ou moral. Não beberam. Não usaram drogas. Não fizeram bobagem neste carnaval. Trata-se de uma reunião da irmandade Narcóticos Anônimos, que acontece em plena Quarta-feira de Cinzas.
O compositor e intérprete de samba-enredo B é um exemplo. Na terça-feira de carnaval estava em cima de um pequeno trio elétrico, comandando um bloco. Mas só trabalhando. Sem aditivos químicos.
“Minha mente estava voltada para o meu trabalho. Na ativa (durante o uso de químicos), ninguém confiava em mim. Agora eu não preciso mais usar. A minha volta, as pessoas estão bebendo, usando. Eu estou realizando meu sonho”, conta ele, que está limpo há sete anos, após 24 de uso pesado.
Mas nem sempre foi assim. B lembra ter passado carnavais terríveis. Ele, que ama tanto a folia, conta que certa vez ficou quatro dias trancado, sem ver nada do carnaval. Nada mesmo.
“Estava num barraco imundo. Trancado. Com uma quantidade enorme de cocaína. Antigamente, meu carnaval era assim. Na Quarta-feira de Cinzas, estava sentindo as dores do uso durante a folia ou usando mais para anestesiar a dor”.
As reuniões do Grupo Árvore, do Narcóticos Anônimos, são todas abertas
As pessoas vão sentando e começam as partilhas. Nada do que foi dito na reunião será escrito aqui, respeitando as tradições 11 e 12 do Narcóticos Anônimos, que tratam sobre promoção pessoal, anonimato e proteção das informações dadas durante um encontro. As reuniões do Grupo Árvore no Aterro do Flamengo são todas abertas (onde é permitida a participação de pessoas que não são parte de NA), mas as tradições continuam valendo mesmo assim.
L, que está no Narcóticos Anônimos desde 2002, conta que este ano foi para Itaipuaçu, na Região Oceânica, fugindo da agitação intensa. Porém, hoje não tem mais problemas com carnaval. Ele tem 47 anos, e passou muitos deles sofrendo.
“Eu me envolvia em brigas, perdi dinheiro, fui enganado pelas pessoas. Já acordei na areia da praia, todo mijado”, conta ele, que, antes da reunião, acordou cedo para treinar e deixou para a parte da tarde a tarefa de capinar o terreno de uma casa que comprou numa área rural da Zona Oeste, longe da bagunça.
O senhor de 70 que abriu a reunião foi para o Aterro do Flamengo somente com este fim. Ele saiu do Complexo da Maré e assumiu o encargo porque não havia outros servidores disponíveis. Foi com alegria.
“Sem Narcóticos Anônimos, eu estaria agora deitado em algum lugar, sem destino, sem espírito”, conta ele que, depois da reunião ia dar um mergulho no mar do Flamengo.
O mar, aliás, faz parte do cenário do Grupo Árvore, que nasceu em 17 de setembro de 2021, por causa de uma emergência. Era o auge da pandemia, as salas das irmandades estavam fechadas. Muitos adictos não se adaptavam ao modelo das reuniões online. Grupos improvisaram encontros em lugares abertos, com distanciamento social e uso de máscaras. Alguns nasceram da necessidade de se reunir para continuar a recuperação contra a doença do vício, entre eles o Árvore.
Um dos participantes distribuiu Coca-Cola e biscoito Globo
Um dos pioneiros estava na reunião ontem. Chegou com Coca-cola e biscoitos Globo para a rapaziada. “Dando de graça o que recebeu de graça”, como diz um dos lemas das irmandades.
“Fui a reuniões todos os dias do carnaval. Vi alguns blocos de passagem, mas não entrei”, afirma ele, que está há seis anos em recuperação.
JP, de 50 anos, também estava lá, com os rostos de Bill Wilson e Bob Smith, fundadores de Alcoólicos Anônimos, tatuados em seu braço direito. Há algumas poucas 24 horas, teria acordado cedo, mas para tomar uma dose de alguma bebida e parar os tremores do corpo e a sensação de pânico.
“Cada dia limpo é uma dádiva”, diz ele, que, apesar de alcoólatra, optou por fazer parte do Narcóticos Anônimos: “Álcool também é droga”. Perto do local onde acontecia a reunião, um animado bloquinho tocava versões de MPB e música internacional.
Uma das integrantes, a engenheira Carolina Salcedo, de 41 anos, conta que o bloco costuma sair sempre na sexta-feira de carnaval. Mas, como ensaiam o ano inteiro no Aterro, decidiram fazer uma saideira na Quarta-Feira de Cinzas. Ela se surpreendeu ao saber que havia uma reunião de Narcóticos Anônimos ali. E deixou o repórter ainda mais surpreso ao informar o nome do bloco do qual faz parte: Dura Realidade.
Por colaboração de João Paulo Arruda


Uma luta diaria e uma gloria de vida!!! Sigam firmes e fortes!!! So por hoje.
Que texto maravilhoso, que emoção eu senti lendo e imaginando estando neste lugar. Acredito que o PS estava agindo horizontalmente ou verticalmente mas operando suas dádivas que para alguns: milagres alcançados.
Um dia limpo é um dia bem sucedido.
Obrigado pelo exemplo, tmj.
Que bela matéria!
Excelente matéria. Muito bom ver a divulgação de iniciativas dessa natureza! Parabéns João Paulo Arruda!!
Linda matéria
Bravos lutadores! A luta jamais será em vão. O triunfo chega a cada dia.