Em um estado onde a água pesa cada vez mais no bolso de famílias e empresas, o projeto piloto de captação de água para subsistência dos moradores de um quilombo em Búzios, na Região dos Lagos —desenvolvido pela Litologica — empresa carioca de hidrogeologia fundada por mulheres — vem transformando o cotidiano da comunidade — historicamente privada de saneamento básico.
O projeto piloto é no Quilombo Baía Formosa e foi idealizado durante o mestrado da carioca Dandara Santos Rodrigues, 33 anos — geóloga formada pela UFRJ e sócia fundadora da Litologica — que levou à comunidade quilombola o direito à água com “cuidado ambiental”. Segundo a pesquisadora, o projeto contou com a união de saberes técnicos que resultaram em uma experiência considerada bem-sucedida e inspiradora.
“É um trabalho piloto, mas com vocação para ser o primeiro de muitos. A comunidade merece ainda mais”, afirma Dandara. A expectativa para este ano é atrair novos investimentos que garantam a continuidade da iniciativa e permitam sua expansão para outras regiões que enfrentam desafios semelhantes no acesso à água.

“Eu fiz um levantamento socioeconômico sobre o impacto do projeto com aproximadamente 30 pessoas. O território é bem grande, formado por cinco núcleos diferentes, mas a captação instalada atende apenas um desses núcleos — onde ficava a sede da associação quilombola —, pois o projeto tem recursos muito limitados”, explicou a pesquisadora.
Empresa carioca completa 10 anos em área científica historicamente masculina
Fundada pelas geólogas Dandara Rodrigues e Fernanda Martins, formadas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a empresa carioca construiu sua história enfrentando desafios que vão além da complexidade científica dos projetos.
As profissionais relatam ter lidado com episódios de assédio, questionamentos sobre sua capacidade técnica e a necessidade constante de provar, mais de uma vez, aquilo que seus currículos já demonstravam. Ambas também são sócias fundadoras da Rio Geotour, focada na disseminação do conhecimento de geociências para turistas.
Apesar desse cenário, a Litologica vem expandindo sua atuação pelo sudeste, com projetos em andamento em São Paulo e consultorias realizadas também no Espírito Santo e em Minas Gerais, desenvolvendo consultorias ambientais, análises de solo e água e estudos técnicos fundamentais para obras e empreendimentos. Na prática, segundo as pesquisadoras, isso significa “investigar onde está a água, em que quantidade ela pode ser utilizada, se é potável, se está contaminada e quais riscos ambientais podem existir em determinada área”.
“O nosso trabalho está diretamente ligado à vida cotidiana, mesmo que muitas pessoas não percebam. A água que chega às casas, às escolas, aos hospitais e às indústrias depende de estudos técnicos sérios e responsáveis”, explicam as sócias fundadoras.
Projeto será apresentado em evento na África do Sul
Com o êxito do projeto piloto finalizado, a pesquisa de mestrado de Dandara Rodrigues, que embasa a iniciativa, foi aceita para apresentação em um congresso internacional, na África do Sul, da International Federation of Surveyors (FIG), organização não governamental reconhecida pela ONU que reúne mais de 120 países e é referência global na discussão de práticas, padrões e inovação nas áreas de geociências, território e recursos naturais.
Para além dos bastidores técnicos, os envolvidos defendem que a pauta da sustentabilidade precisa alcançar toda a sociedade.
“O legado mais importante do projeto é justamente que ele sirva de inspiração para outros pesquisadores e instituições. A ideia é chamar para que sejam aplicados projetos para o tratamento dessa água e também para instalar outras captações nesse e em outros territórios em vulnerabilidade hídrica”, completou Dandara.


