A Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) resolveu batizar o que já era batizado. E passou a chamar de Espaço Monarco o segundo recuo de bateria da Marquês de Sapucaí — que, até os arcos da Apoteose estão cansados de saber, já se chamava Espaço Candonga.
Não que Monarco — um dos maiores compositores das escolas de samba, ex-presidente de honra e ex-líder da espetacular Velha Guarda da Portela, morto em 2021 — não mereça. Mas tem muita história por trás da iniciativa de batizar o segundo recuo com o nome de Candonga.
“Fomos pegos de surpresa, infelizmente, com duas placas homenageando o queridíssimo Monarco, que também era amigo do Candonga, muito amigo. Mas o presidente da Liesa, o Gabriel David, sabe da nossa história, sabe quem criou o Espaço Candonga, sabe da chave da cidade, de toda a história que Candonga tem na Marquês de Sapucaí. O nome do segundo recuo de bateria foi estabelecido por uma lei municipal, aprovada por unanimidade na Câmara, e não pode haver desrespeito à lei”, disse Maurício Jorge Silva de Jesus, presidente do Instituto Cultural Candonga e filho do homem.
A lei a que se refere Jesus é a 6.214, de autoria do hoje conselheiro do Tribunal de Contas do Município (TCM) Thiago K. Ribeiro, aprovada e promulgada pela Câmara do Rio em marco de 2019.
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O ex-presidente da Riotur Antônio Pedro Figueira de Mello, que acompanhou os ensaios técnicos de domingo, também não gostou, nem um pouquinho, do rebatismo. Às 3h15 da madrugada desta segunda-feira (24) enviou uma mensagem para o prefeito Eduardo Paes (PSD), em protesto.
Quem foi Candonga
Guardião oficial das chaves da cidade, que a cada carnaval são entregues ao Rei Momo, José Geraldo de Jesus, o mestre Candonga, era funcionário da Riotur. Era ele quem costumava abrir caminho na passarela para as escolas e também orientar a entrada das baterias no recuo entre os setores 9 e 11 — que, conta a lenda, foi inventado por ele. Quando os ritmistas entravam (lindamente, é um espetáculo a entrada de uma bateria no recuo), Candonga distribuía água para os músicos.
Todos os carnavais, ele estacionava nos fundos do recuo a sua Caravan de cor laranja, modelo 1980, carregada com litros de água e de Cravo Escarlate — uma beberagem feita com 16 ervas (receita do avô do homem), que, segundo Candonga, tinha poderes afrodisíacos e encantou famosos, artistas e políticos, inclusive Dilma Rousseff e, claro, o presidente Lula.
Até hoje a Caravan é o único veículo autorizado pela Prefeitura do Rio a estacionar dentro da Sapucaí. E a família de Candonga, morto em 1997, ainda cuida das chaves da cidade até o carnaval chegar.
O mais curioso é que o presidente da Liesa, Gabriel David, sabe disso. Vejam o vídeo que mostra o quanto o rapaz é iniciado nas artes de Candonga.