Em março de 2023, ao lado de famílias vítimas da tragédia das chuvas na Rua Nova, em Petrópolis, o deputado estadual Yuri Moura (PSOL) gravou um vídeo — que, em seguida, publicou nas redes sociais — classificando a obra de “porca”, e chamando Cláudio Castro (PL) de corrupto e caloteiro. O governador não titubeou: moveu queixa-crime contra o deputado. O processo foi aceito pelo órgão especial do Tribunal de Justiça do Rio e o julgamento foi marcado para esta segunda-feira (26).
“Gente, eu sabia que o governador era corrupto e também caloteiro, porque não paga aluguel social, não paga Gram (Gratificação de Risco da Atividade Militar) dos policiais veteranos e bombeiros. Mas eu não sabia que ele era porco também. Isso aqui é uma verdadeira porcaria essa obra”, afirmou Yuri.
O deputado virou réu no processo em outubro de 2023. Para os advogados de Castro, ele extrapolou o intuito de narrar situação concreta para “proferir diversas ofensas gratuitas” ao chefe do executivo fluminense. Em março de 2025, Yuri foi ouvido e, em sua defesa, disse que as críticas foram feitas durante fiscalização ao lado de famílias vítimas da tragédia, o que seria sua atribuição parlamentar, e que os moradores seguem indignados com a forma que a obra foi entregue, ainda oferecendo risco.
“É perseguição política. Sou o único deputado processado pelo governador, não à toa, mas por fazer oposição e denunciar absurdos. Nossa revolta é com as obras mal feitas após tragédias em minha cidade. Obras milionárias, emergenciais, que ainda deixam a população em risco. As chuvas estão aí e o governador, em vez de consertar a obra, processou quem a fiscalizou a pedido das famílias vítimas”, disse.
Nesta segunda-feira (19), foi publicada a data do julgamento. A assessoria de Yuri disse estar surpresa com a celeridade do processo, e o agendamento durante o recesso do TJ — e o prazo de menos de uma semana entre a publicação e a audiência. A equipe informou que o deputado não estará no Brasil, porque foi convidado para uma agenda política em Portugal. A viagem, durante o recesso parlamentar, será custeada com recursos próprios.
“Recentemente conseguimos incluir a Rua Nova nas obras do Novo PAC, do governo federal. Em outubro, recebi o secretário nacional de Periferias, Guilherme Simões, e as intervenções já estão acontecendo. Isso só comprova que nossa fiscalização mostrou a verdade. O governo do estado fez uma obra cara, emergencial, eleitoreira e manteve a comunidade no risco, por isso a necessidade de novas obras que cobramos por quase três anos. Espero que a Justiça respeite minha prerrogativa parlamentar. Independentemente da decisão, não irei abandonar as famílias”, afirmou o Yuri.
Yuri Moura é líder do PSOL na Assembleia Legislativa e chegou ao segundo turno das últimas eleições para prefeito em Petrópolis, em 2024, terminando em segundo lugar. Hoje, a cidade é governada por Hingo Hammes (PP), que foi apoiado por Castro e o secretário estadual do Ambiente, Bernardo Rossi.
Obra apontada por Yuri custou mais de R$ 80 milhões
Em maio de 2022, o governo do estado contratou, por meio emergencial, a empresa Geologus para realização de projeto executivo e execução de obras de contenção no Complexo da Rua Teresa, incluindo chumbamento e envelopamento de rochas e instalação de barreiras dinâmicas. A Rua Nova, no bairro 24 de Maio, pivô da polêmica, estava contemplada. A obra se iniciaria em maio de 2022, com previsão de término em novembro do mesmo ano. O valor inicial era de mais de R$ 80 milhões.
Em 2023, o deputado denunciou a corrosão do gradeamento e de todas as mantas de proteção da encosta, deixando o solo exposto e com marcas de erosão. As casas continuavam interditadas, mesmo após as obras, por divergências técnicas entre o município e a administração estadual. O deputado solicitou vistoria conjunta, com o governo do estado e a Prefeitura de Petrópolis. Em janeiro de 2024, a Defesa Civil de Petrópolis reportou ao estado a insegurança geológica na área.
As intervenções na Rua Nova também são objeto de ação civil pública movida pelo Ministério Público em face do estado e do município, que também aponta problemas em drenagem e inconclusão das obras.
Yuri solicitou a readequação das obras da Rua Nova à Secretaria de Infraestrutura do estado (Seinfra). Houve uma visita técnica à obra, acompanhada de profissionais do Departamento de Recursos Minerais (DRM), Defesa Civil Estadual e Instituto Estadual de Engenharia e Arquitetura (IEEA). O relatório da visita indicou que a obra cumpriu o seu papel emergencial, porém reforçou que eram necessárias novas intervenções para redução dos riscos.

