Eu sou do tempo em que a Seleção Brasileira de Futebol era chamada de escrete (do inglês scratch = improvisado) e todos os atletas jogavam em clubes brasileiros. Pelos critérios das convocações e improvisos das preparações atuais, seria muito justo voltarmos a nominar nossa seleção de scratch, ou não? Se hoje os clubes não gostam de ceder seus craques para o selecionado nacional, alegando desfalques para seus compromissos, naquela época os times se sentiam honrados e até manobravam para que isso acontecesse. Os mais velhos hão de lembrar do orgulho vascaíno, botafoguense ou santista, em algumas épocas, de ter mais da metade do scratch nacional composto por seus players (é, amigos, como resquício da origem do esporte bretão as palavras em inglês ainda eram muito usadas: laterais eram backs, zagueiros eram fullbacks, volantes eram halfs, os goleiros se intitulavam goalkeepers e os atacantes de área não passavam de center forwards. Ah, o escanteio era corner, o impedimento era offside e os juiz era referee). Mas, deixemos o anglicismo obsoleto, que disso já nos livramos, e os garotos de hoje não mais precisam do futebol para entender inglês; já bastam as vitrines das lojas e os joguinhos da internet.
Voltemos à seleção.
Após ser campeão do mundo em 1958, na Suécia, o mercado europeu “descobriu” o Brasil e muitos jogadores foram para clubes daquele continente. O fluxo ficou tão intenso que uma dúvida dominou os debates esportivos: os jogadores brasileiros jogando em clubes estrangeiros poderiam ser convocados para a seleção? Alguns achavam que sim, desde que seus clubes os liberassem em tempo hábil para os treinamentos. Outros achavam que não, alegando que aqueles jogadores certamente já não tinham o sentimento nacionalista para defender a pátria. O tempo encarregou-se de resolver o problema, de vez. Já eram tantos os atletas de alta qualidade jogando lá fora que a unanimidade se fez no sentido de convocar os melhores jogadores, independentemente de onde jogavam. E nesse diapasão, representados por gerações de maravilhosos jogadores (jogadores, sim, porque de técnicos nunca fomos brilhantes, tanto é verdade que nenhum brilhou no exterior) conseguimos vencer cinco copas e fazer bonito em outras. Todavia, isto parece ter acabado pois, a nossa última vitória foi no já longínquo 2002, na Copa do Japão-Coreia do Sul. Já ocorreram cinco copas do mundo com atuações bisonhas da nossa seleção, sem podermos deixar de registrar o vexame histórico e vergonhoso da derrota por 7×1 para a Alemanha na Copa de 2014 realizada onde? Onde? No Brasil, em nossa casa!
Agora, em abril de 2025, a classificação atual e as performances dos nossos craques (?) na fase classificatória para a Copa do Mundo do próximo ano não nos garante de que lá chegaremos.
E o que está acontecendo? Como todos nós, brasileiros, nos arvoramos de entendedores de futebol, existem milhares de teses e explicações, obviamente sem nenhuma comprovação. E eu também tenho as minhas, é claro.
A aldeia global de Herbert Marcuse se cristalizou, o mundo ficou pequeno, e todos os campeonatos regionais, mesmo os disputados em lugares remotos, são vistos em tempo real. Os amantes do esporte conhecem todos os jogadores, todos os técnicos, todas as táticas, todos os condicionamentos físicos e métodos de recuperação física dos atletas. Todos conhecem todos. Tudo está muito igual. Não há surpresas. Nunca mais alguém será surpreendido por um Carrossel Holandês, ou com o 4-3-3 brasileiro de 1958. Se antes os craques se destacavam por suas habilidades técnicas, hoje são elogiados por suas disciplinas táticas. Isso faz com que as individualidades desapareçam e os jogadores fiquem limitados aos esquemas e táticas dos seus clubes, explicando porque tidos como craques nos clubes estrangeiros, os nossos jogadores não rendem nada na seleção nacional.
O poder econômico captura jogadores antes da maioridade para os países mais ricos, e a nossas revelações saem tão cedo do Brasil que, quando convocados para o nosso escrete (aí cabe escrete mesmo, pela desorganização), são totalmente desconhecidos pela maioria dos torcedores.
Por outro lado, os meios de comunicação brasileiros, necessitando de audiência e patrocinadores, deixaram de fazer as merecidas críticas aos péssimos jogos, aos jogadores medíocres, aos técnicos sem criatividade e liderança. E tecem loas a pseudocraques induzindo a nós, torcedores a vermos geniais Pelés, Garrinchas, Ronaldinhos ou Zicos, quando de verdade estamos apreciando simples Gabigols, Deyversons, Matheuzinhos e Aranas. Vemos craques onde existem apenas atletas esforçados, onde o talento inexistente é substituído pelo suor, vigor físico e obediência tática. Os grandes clubes brasileiros vendem seus jovens promissores e os substituem por jogadores sul-americanos que não interessaram aos europeus, ou repatriando brasileiros em final de carreira.
Técnicos? Acho que não são tão importantes assim. Vejam que fomos campeões do mundo na Suécia com um técnico que cochilava durante os jogos e tomamos os 7×1 da Alemanha comandados pelo, até então, elogiado técnico que havia vencido a Copa do Japão.
Vergonha na cara? Pela resignação e descaso diante da acachapante derrota recente para a Argentina, desconfio que é um tempero que falta aos nossos canarinhos. E uma pitadinha cairia bem.
Olá, Alfeu (atenção corretor, eu escrevi Alfeu!).
O futebol deixou de ser um esporte para tornar-se um balcão de negócios, no qual patrocinadores e empresários dão as cartas. Os jogos já não acontecem em estádios e sim em arenas, (lugar de gladiadores). Há muito mais a dizer, mas paro por aqui. Abraço.
Não se faz mais jogadores como antigamente, cadê o futebol raiz? O placar vergonhoso do último jogo Brasil X Argentina escancarou a decadência do futebol pentacampeão. A cada jogo, a fragilidade e a incompetência da equipe brasileira se torna mais evidente. Lamentável .
Não se faz mais jogadores como antigamente, cadê o futebol raiz? O placar vergonhoso do último jogo Brasil X Argentina escancarou a decadência do futebol pentacampeão. A cada jogo, a fragilidade e a incompetência da equipe brasileira se torna mais evidente.
Futebol já era.