Depois do sucesso do presente, o futuro é a grande discussão em torno do Porto Maravilha, tema de seminário nesta terça-feira (26), na Câmara Municipal do Rio.
A atração de novos negócios e pequenos comércios, condição fundamental para que a área ganhe cada vez mais ares de bairro residencial; a preocupação ambiental e uma movimentação cultural que incremente o turismo foram debatidas no evento “Rio em Tempo Real: o novo Porto” — que reuniu vereadores, representantes do executivo, especialistas e estudantes no Salão Nobre do Palácio Pedro Ernesto.
Serão 45 mil novos moradores até 2029 e 250 mil em 2064
Subsecretário de Desenvolvimento Econômico e Inovação da Prefeitura do Rio, Marcel Balassiano diz que a vocação de futuro do Porto Maravilha pode ser observada em números como o da abertura de vagas de emprego em Tecnologia da Informação, que registrou um crescimento de 83%.
Hoje, cerca de 10% de todos os profissionais do Rio nesta área de atuação estão no Porto Maravilha.
“O crescimento continua em várias frentes. Esperamos mais 45 mil novos moradores no Porto Maravilha até 2029, que se somarão aos 49 mil que já estão lá hoje. A previsão é de 250 mil novos moradores até 2064”, comemora Balassiano, ressaltando que o futuro já é presente em números como o impacto de R$ 100 milhões somente com a recente realização da Rio Fashion Week.
Crise climática e necessidade de investimento também entram no debate
A vereadora Tainá de Paula (PT), ex-secretária de Meio Ambiente da Prefeitura do Rio, festejou o fato de não ter acontecido, no Porto Maravilha, o que ela e muitos outros temiam: a elitização da área por causa dos novos empreendimentos — com a consequente gentrificação, a expulsão dos moradores mais antigos e menos abastados.
Tainá alerta, porém, para a necessidade de investimentos na área ambiental, que começam com detalhes importantes, como a arborização do bairro.
“Não tem orçamento que dê conta da crise climática. Há escassez de recursos. O planeta mudou. As ruas do Centro não alagavam, décadas atrás, como alagam agora. Isso é um problema a ser enfrentado”, acrescentou a ex-secretária, lembrando ainda que é preciso olhar com atenção para as comunidades, como as pequenas favelas e os moradores das construções no entorno da Central do Brasil. “E criar formas de atrair para a região as pessoas que estão na faixa de renda de até um salário mínimo. Muitos deles serão os futuros estudantes e trabalhadores moradores do bairro”.
Jovens e seus filhos formando o novo público do local
A vereadora Rosa Fernandes (PSD), que sempre passou pela área, desde muito antes da derrubada do Elevado da Perimetral, em 2013, diz que está deslumbrada com a mudança do cenário, que não para de acontecer. Ela diz que enxerga o futuro do Porto Maravilha principalmente nas pessoas.
“Eu estive nos estandes de vendas de imóveis e vi muitos jovens. É o novo público, diferenciado, da área do Porto. E, depois deles, virão seus filhos. O local será uma área de muitos jovens, que vão construir um espaço de habitação, cultura e lazer diferente”, aposta a parlamentar, que vê no fato de morar no Porto uma maneira, por exemplo, de ficar livre de uma das maiores pragas urbanas: o trânsito, que faz com que as pessoas percam quatro, cinco horas de seu dia somente com deslocamentos.
Um bom negócio para quem decidir investir no comércio local
O presidente do Conselho Empresarial de Renovação do Centro do Rio e Ordem Pública da Associação Comercial do Rio, Carlos Osório, afirma que a entidade esperava pela revitalização das áreas centrais da cidade há 40 anos e é uma das maiores entusiastas das mudanças que acontecem agora no Porto Maravilha.
“Estamos tentando motivar nossos associados a abrirem comércios na região. Quem entrar agora vai pagar barato e ganhar dinheiro. A prefeitura pode ajudar facilitando a concessão de alvarás de funcionamento. A recuperação da área central do Rio reflete diretamente na recuperação da cidade como um todo e também do estado”, pontua Osório.
Confiança no olhar diferenciado dos investidores de fora
Diretora de Novos Negócios da ACLA Desenvolvimento, Ana Carmen Alvarenga lembra que desde 2008 sempre teve a preocupação de levar investidores à área portuária do Rio. Ela comemora os avanços obtidos até agora e diz que ainda há muito a ser conquistado.
“Nossa frente marítima é linda. Todos os investidores de fora que visitam o local têm essa visão”, conta a executiva.
Agenda cultural intensa para fortalecer a vocação de crescimento do Porto Maravilha
O vereador Flávio Valle (PSD), presidente da Comissão de Turismo, chama a atenção para a necessidade de criar uma agenda cultural ainda mais forte na região.
“Quem vai a uma grande capital para turistar não quer saber se é segunda-feira, terça, fim de semana. Turismo tem a ver com a ocupação de espaço. Os bares, por exemplo, precisam estar abertos não só no horário comercial. É preciso ter shows, teatro. É impossível prever o que ainda vai acontecer. A vocação do Porto Maravilha é estar sempre olhando para a frente”, comenta o vereador.

Mudança de paradigma no curso dos acontecimentos
O assessor-chefe especial de Relações Institucionais e Captação da CCPar, Rilden Albuquerque, recorre inclusive ao passado para mostrar que as mudanças do Porto Maravilha são uma constante obra em progresso.
“Lá atrás, imaginávamos o Porto como uma extensão do Centro financeiro da cidade. Hoje essa relação mudou. O Porto é que virou solução para o Centro”, comenta ele, analisando os impactos ocorridos após a pandemia, que praticamente transformaram a área central do Rio numa zona fantasma, antes de a retomada acontecer.
Rilden diz ainda que o futuro das áreas centrais da cidade repousa sobre uma palavra: conexões.
“Hoje os avanços do Centro e da área do Porto são pressionados, por exemplo, pela Feira da Glória. Pelo outro lado, a expansão para São Cristóvão também trará contribuições”, afirma.
Parceria para garantias de mudanças feitas a longo prazo
O vereador Rafael Satiê (PL) ressalta que a Câmara tem sido uma grande parceira do poder executivo nas transformações e diz que a certeza de continuidade de projetos como o do Porto Maravilha é um grande trunfo.
“Vimos nos últimos anos que as mudanças necessárias não estiveram atreladas a determinado mandato. Elas são projetos com compromisso a longo prazo”, lembra.
O vereador ressalta, ainda, o trabalho das incorporadoras, que têm levado moradia à região. E transformaram o Porto, desde 2024, no bairro que registra o maior número de lançamentos imobiliários do Rio — desbancando a Barra da Tijuca, o Recreio e Jacarepaguá.
“É preciso deixar a iniciativa privada trabalhar, porque ela vem mostrando neste projeto que é capaz”, elogiou Satiê, que registra, no entanto, a necessidade de corrigir os rumos em alguns pontos. “O VLT não é, certamente, o sistema de transporte mais adequado, porque não tem a capacidade necessária. É preciso dar mais atenção ao transporte de massa”.
O seminário foi uma realização da Câmara dos Vereadores do Rio com o site TEMPO REAL. A mediação foi feita pela jornalista Berenice Seara.

