Com o fim da janela eleitoral e do prazo de desincompatibilização, encerrados nos dias 3 e 4 de abril, as cartas para a disputa pelo governo do estado em outubro estão postas. À frente aparecem o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD) e o deputado estadual Douglas Ruas (PL), mas outros nomes circulam pelos bastidores na tentativa de emplacar a velha conhecida terceira via ou, ao menos, forçar um segundo turno.
Pela direita e pelo centro, há quem aposte na candidatura do comunicador André Marinho (Novo) ou no nome que será escolhido pelo Republicanos entre o ex-governador Anthony Garotinho e o ex-prefeito de Miguel Pereira, André Português. Já na esquerda, apenas o vereador William Siri (PSOL) tem o nome posicionado na corrida pelo Palácio Guanabara.
O medo de um novo azarão
De acordo com Mayra Goulart, doutora em Ciência Política e coordenadora do LAPPCOM, Garotinho é quem aparece melhor posicionado nas pesquisas no cenário atual, ao lado de Paes e Ruas. Ainda assim, Goulart ressalta que, no contexto político fluminense, nenhuma candidatura pode ser descartada, sobretudo diante da possibilidade de segundo turno.
“Os outros dois candidatos, um mais à direita e outro mais ao centro, ainda não são tão conhecidos e também não estão vinculados a partidos com recursos e tempo de campanha suficientes. De todo modo, em uma eleição polarizada, poucos votos acabam sendo decisivos para a definição de um segundo turno. E, no segundo turno, tudo é possível”, explicou.
A professora da UFRJ também lembrou a vitória do azarão Wilson Witzel (PSC) nas eleições de 2018, um nome até então pouco conhecido e que demorou a ganhar tração nas pesquisas. Witzel venceu no segundo turno o favorito Eduardo Paes, à época no DEM, com 4,6 milhões de votos (59,87%).
O eleitorado em busca de novidade
Na visão da pesquisadora, a chamada “nova política” também pode ganhar força, o que tende a afetar a popularidade de Garotinho e beneficiar André, filho do empresário e político Paulo Marinho (Republicanos). Estreando na política, o apresentador, humorista e influenciador leva às urnas sua visibilidade na TV e no rádio, além de mais de 300 mil seguidores no Instagram.
“Garotinho pode ser visto como representante da ‘velha política’, enquanto esse eleitorado, que busca algo completamente novo com um discurso antipolítica, pode se aproximar de um dos dois Andrés. Um deles já teve trajetória como prefeito e o outro não tem experiência política. Nesse sentido, o que não tem carreira política pode ter mais facilidade para se associar a essa ideia de ‘nova política’”, completou.
Impacto da polarização do cenário nacional
Já Brand Arenari, chefe do Departamento de Ciência Política da UFF, destaca a importância de considerar o impacto da polarização do cenário nacional nas eleições estaduais. Na briga pelo Planalto, despontam o presidente Lula (PT), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-governador de Goiás e pré-candidato pelo PSD, Ronaldo Caiado.
“O primeiro cenário decisivo é o quanto essa polarização nacional vai contaminar ou não a eleição do estado do Rio e as outras eleições regionais. Para alguns candidatos, isso é uma vantagem; para outros, uma desvantagem”, explica Arenari.
Apoio da família Bolsonaro pesa na balança
A possível interferência das eleições nacionais no estado, segundo o especialista, recai sobre Paes, que atualmente possui vantagem no jogo eleitoral. Isso porque Douglas Ruas conta com o apoio da família do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que tem grande influência no estado do Rio.
“Havendo essa contaminação, a possibilidade de uma terceira via, seja ela qual for o candidato, fica muito difícil. Muito difícil para todos os outros candidatos, porque eles acabam sendo absorvidos pelas paixões polarizadas, que não aceitam uma terceira via nesse jogo de disputa”, completou.
André Marinho e a possibilidade de segundo turno
O último cenário apontado por Brand Arenari é o de André Marinho conseguir ampliar sua base e atrair parte do eleitorado mais à direita, hoje associado a Douglas Ruas, levando a disputa para um segundo turno ou ocupando esse espaço na corrida eleitoral.
“Há possibilidade de algum desses candidatos absorverem a polarização, como é o caso do Marinho, um apresentador jovem ligado a setores da direita. Ele poderia não ser exatamente uma terceira via, mas talvez ocupar o espaço que hoje é do Douglas Ruas, caso tenha um desempenho muito bom e Ruas não corresponda no início da corrida eleitoral”, finalizou.
Os pré-candidatos se organizam enquanto o Supremo Tribunal Federal (STF) decide os rumos da sucessão estadual, incluindo a eleição-tampão para o mandato até dezembro. No momento, o presidente do Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ), Ricardo Couto, está à frente do governo após as renúncias de Cláudio Castro (PL) e do ex-vice Thiago Pampolha.

