Fantasia de desfile não precisa ter vida curta. No coração da Gamboa, na Zona Portuária do Rio, um casarão abriga pilhas de plumas, tecidos, adereços e estruturas que já cruzaram a Marquês de Sapucaí — e agora ganham novos destinos. É ali que funciona o Sustenta Carnaval, projeto socioambiental que une economia criativa e ambientalismo a partir da revenda de fantasias que seriam descartadas pelas escolas de samba.
O projeto vende os adereços por R$ 50 o quilo, em um formato que lembra um grande garimpo criativo. “Tem que ir no espírito de catar, imaginar e adaptar”, dizem frequentadores que buscam material para blocos, figurinos, teatro, moda ou intervenções artísticas.
A iniciativa funciona atualmente na Rua Pedro Ernesto, 67, na Gamboa, de quarta a sexta-feira, das 14h às 19h, e aos sábados, das 10h às 19h.

Fantasia fora da avenida e dentro do ciclo produtivo
Idealizado pela artista e produtora cultural Mariana Pinho, o Sustenta Carnaval surgiu a partir de uma constatação prática. Depois de anos trabalhando com dança, figurino e direção artística no Brasil e no Reino Unido, ela percebeu o contraste entre o carnaval carioca e outras manifestações culturais, onde os figurinos precisam durar mais tempo por falta de verba.
“Quando voltei ao Rio, entendi que, por questões legítimas de logística, muitas fantasias iam direto para o aterro, para o lixão. Aquilo me atravessou”, conta Mariana.
Durante a pandemia, a ideia virou projeto estruturado. O Sustenta foi registrado como iniciativa sem fins lucrativos e passou a atuar de forma integrada nas frentes ambiental, social e econômica. Além da venda direta ao público, o acervo abastece produções de teatro, cinema, editoriais de moda e projetos educacionais.
“As fantasias são majoritariamente feitas de materiais sintéticos, que levam séculos para se decompor. Quando a gente prolonga o uso desses materiais, evita o descarte e reduz a necessidade de matéria-prima nova”, explica.
A atuação também ultrapassa fronteiras. O projeto é registrado no Reino Unido como Community Interest Company (CIC) e já venceu, por três anos consecutivos, competições no Carnaval de Notting Hill, onde atua com imigrantes, vítimas de violência doméstica e a comunidade LGBTQIA+.

Parcerias institucionais garantem legitimidade, mas não há incentivo permanente
No Rio, o Sustenta mantém acordo de cooperação com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima, além de parcerias com a Liesa e o Rio Carnaval. Em 2025, o projeto foi responsável pela coleta de resíduos têxteis dos desfiles na Sapucaí — ação que contribuiu para a certificação ISO 20121, que atesta a adoção de práticas sustentáveis na gestão do Carnaval carioca.
Apesar do reconhecimento institucional, o projeto não conta com incentivo público permanente. “Nosso projeto não tem incentivo de base. Ele sobrevive da venda dos produtos, de serviços e das parcerias que a gente constrói. A nova sede é menor do que a anterior, mas foi a forma de salvar o projeto e seguir”, explica a produtora cultural.
A expectativa é que a receita gerada permita melhorar a estrutura do espaço, ampliar a capacidade de armazenamento e qualificar a triagem dos materiais, garantindo a continuidade do projeto.

Iniciativa também doa fantasias para carnavais do interior do Rio
O Sustenta Carnaval também atua fora da capital, destinando fantasias reaproveitadas a municípios do interior fluminense que vêm retomando seus carnavais. O projeto conta com o apoio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, responsável por viabilizar a articulação com outras cidades.
Atualmente, mantém parceria com Cachoeiras de Macacu, em cooperação com a Fundação Macacu e a Secretaria Municipal de Cultura, dentro da política do ICMS Verde, que relaciona ações ambientais a mecanismos de repasse de recursos aos municípios.
“A partir do momento em que o projeto foi apresentado à Secretaria, ele passou a ser visto como uma ferramenta concreta de política pública, não apenas como uma ação cultural isolada”, observa Mariana.
Além de Cachoeiras de Macacu, municípios como Paraíba do Sul, Macaé e Teresópolis também passaram a utilizar fantasias reaproveitadas do acervo para viabilizar seus desfiles e manifestações carnavalescas.
“Isso reduz o descarte e ajuda a manter vivos carnavais que muitas vezes não têm recursos para investir em figurinos novos”, resume.

