Uma polêmica envolvendo a Federação Equestre do Estado do Rio de Janeiro (Feerj) ganhou destaque nesta semana, após a entidade divulgar um comunicado ameaçando aplicar sanções a uma escola que estaria sediando uma competição “não autorizada.”
A decisão gerou reação imediata de instrutores, escolas e da recém-criada Liga Carioca de Hipismo (LCH), responsável pelo evento alvo da denúncia.
O caso ganhou repercussão nacional após o Círculo Militar de Polo contestar publicamente a medida, seguido por críticas do bicampeão olímpico Luiz Felipe Azevedo em vídeo divulgado nas redes sociais. Militares e atletas questionam a postura da federação, que agora enfrentará uma denúncia no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
Federação comunicou a proibição de competições ‘não autorizadas’
O conflito começou em 24 de novembro, quando a Feerj publicou um comunicado proibindo atletas, escolas, oficiais e clubes filiados de participarem de competições “não autorizadas”, com possibilidade de advertência e suspensão.
Embora não citasse nominalmente a recém-criada Liga Carioca de Hipismo (LCH), a medida afetava diretamente os eventos organizados pela entidade, que vinha ganhando adesão entre praticantes.
A federação se baseou em previsões de seu estatuto para justificar a orientação, afirmando que cabe a ela regular as competições de seus filiados no estado.
Mas o impacto prático da regra — restringir a participação em circuitos alternativos — rapidamente provocou reação entre escolas e instrutores, especialmente aqueles que atuam fora do hipismo federado.
Liga levou o comunicado da Feerj ao Cade
Horas depois da publicação, a Liga divulgou uma nota pública e protocolou uma Notícia de Fato no Cade, acusando a Feerj de tentar impedir a existência de competições independentes.
Segundo a Liga, a ameaça de punições cria um cenário em que atletas e clubes ficam obrigados a participar apenas das provas da federação. Na representação enviada ao Cade, a entidade fala em abuso de poder, fechamento de mercado e coerção.
A LCH pediu ao Cade uma medida preventiva para suspender as regras da federação enquanto o caso é avaliado.
A escalada da crise: Feerj notificou escola que realizaria evento da Liga
O conflito avançou dois dias depois, em 27 de novembro, quando a Feerj notificou formalmente a Escola Desempenho de Equitação por supostamente divulgar e receber inscrições para um evento da Liga.
A resposta da escola contestou a interpretação, citando legislação esportiva que permite a criação e participação em ligas independentes, além de questionar a associação direta entre a instituição e a Liga — entidades juridicamente distintas.
A entrada dos militares e o aumento da pressão
Nesse clima de conflito, o Círculo Militar de Polo decidiu se manifestar. A entidade, tradicional no meio equestre militar, publicou um comunicado criticando a postura da Feerj e defendendo que o esporte continue acessível a todos. No texto, os militares afirmam:
“Repudiamos a imposição de barreiras que dificultam o acesso ao esporte equestre por parte de elites dominantes” e que “a ninguém foi dado tal poder”.
A fala teve grande repercussão porque militares não costumam entrar em disputas administrativas do hipismo civil.
A nota também circulou rapidamente em grupos do hipismo, aumentando a pressão sobre a Feerj num momento em que o caso já foi enviado para o Cade. Com a denúncia protocolada, cabe ao Conselho definir se há elementos para abrir uma investigação formal — o que pode esclarecer os limites entre regras internas de federações e práticas potencialmente restritivas.
Bicampeão olímpico chama atitude da Feerj de ‘atos ditatoriais’
O cavaleiro Luiz Felipe Azevedo, bicampeão olímpico e um dos nomes mais respeitados do hipismo brasileiro, publicou um vídeo em seu perfil no Facebook criticando as medidas da Feerj.
Na gravação, Azevedo questiona a tentativa de restringir a formação da LCH e menciona que outras modalidades esportivas no país já contam com ligas independentes. Ele afirma:
“O que ela está fazendo, a Feerj, na pessoa da sua presidente, é realmente uma vergonha. Uma vergonha. Eu aqui repudio totalmente atos ditatoriais”.
Enquanto isso, escolas, instrutores e atletas seguem em incerteza: participar dos eventos da Liga pode significar enfrentar sanções da Feerj, enquanto aguardar uma decisão pode afetar o calendário esportivo de fim de ano.
O TEMPO REAL procurou a Feerj por telefone, e-mail e mensagens, mas não obteve resposta. O espaço está aberto à federação.

