Uma das construções mais tradicionais da Zona Sul de Niterói, o Palácio Nilo Peçanha, conhecido popularmente como Palácio do Ingá, pode estar sob nova direção em breve. A prefeitura entrou com um pedido de municipalização do prédio, que é administrado pelo governo estadual e abriga o Museu de História e Arte do Rio. Até 1975, o edifício serviu de sede para o governo do Rio.
O governo confirmou o recebimento do pedido e disse que ainda está analisando uma possível mudança de gestão do imóvel. Segundo a prefeitura, o objetivo do processo é evitar o abandono do edifício.
“O município ainda aguarda o retorno do governo do estado quanto ao pedido de municipalização, de forma a evitar a deterioração do imóvel, como ocorreu com outros prédios históricos”, afirmou o município, em nota.
Niterói abriga outro palacete histórico que está abandonado; imóvel foi moradia de Dom Pedro I
Um dos “outros prédios históricos” a que a prefeitura pode estar se referindo é o Palacete da Praia Grande, conhecido como Palácio São Domingos, que fica na Rua Marechal Deodoro, no Centro. Mesmo tombado pelo Instituto do Patrimônio Cultural (INEPAC) e pela prefeitura, o imóvel está abandonado e tem acesso interditado. O governo do estado também é responsável pela gestão do espaço.
A construção é do período imperial e, no século XIX, serviu de moradia para o então imperador Dom Pedro I. Documentos históricos apontam que o governante português chegou a realizar festas no espaço. Após sua morte, o prédio foi alugado para o governo da Província do Rio de Janeiro e passou a ter certa centralidade no governo fluminense imperial, sediando órgãos como a tesouraria e a guarda policial da província.

“É uma construção importante de um período em que Niterói era a capital da província do Rio — que foi, durante muito tempo, o bastião político-econômico do Segundo Reinado. A gente tem que lembrar que a província do Rio, com a produção de café, foi o sustentáculo de todo o Império durante muito tempo”, conta o professor Rui Aniceto, doutor em História.
Depois da proclamação da República, o edifício passou por mudanças. Passou por um incêndio, recebeu reforma no início do séc. XX, ganhou uma nova estrutura e chegou a voltar a sediar órgãos de administração pública. Até a década passada, parte do prédio sediava uma agência de banco e, a outra, um restaurante popular.
A parte central do prédio, no entanto, está abandonada. Tapumes de obras interditam a lateral do palacete há pelo menos três anos, mas o espaço não chegou a receber obras no período.
Procurado, o governo estadual disse que está em fase de “tramitação um processo administrativo para realizar o levantamento de custos para projetos de restauração arquitetônica, instalações prediais e projetos estruturais” do imóvel.
O Inepac já aprovou os detalhes para contratar as obras e a Empresa de Obras Públicas do Estado (Emop) também participa dos trâmites, mas o projeto final, a licitação para obra e o uso do palacete após a reforma ainda estão em fase de estudo.
Governo estadual ainda não confirmou posição sobre a municipalização do Palácio do Ingá
Já em relação ao Palácio do Ingá, o governo do estado informou que ainda está analisando o pedido de municipalização feito por Niterói. Caso o pedido seja aceito, prefeitura e governo devem alinhar como vai funcionar a operação do museu que o espaço sedia.
Atualmente, quem coordena o espaço é a Fundação de Artes do Rio (Funarj). O museu funciona no local desde 1977. Antes disso, foi sede do governo estadual por quase sete décadas. Prédio do baronato construído no séc. XIX, ele foi comprado pelo então governador Nilo Peçanha, que concentrou sua gestão lá enquanto Niterói ainda era capital do estado do Rio.

O Palácio do Ingá só deixou de ser usado pela administração pública quando o Rio e o antigo estado da Guanabara se “fundiram” na década de 70. Apesar de recente, a história do espaço não é muito conhecida por moradores da região — o que pode ser um empecilho para a preservação do espaço a longo prazo, como destaca o historiador.
“A importância da preservação desses espaços se dá pelas marcas significativas e históricas que essas construções guardam dessa experiência, desse momento histórico. No entanto, para que elas possam ser assumidas como patrimônios, esses bens precisam ser preservados e precisam fazer parte dessas comunidades. Se eles não estão nesse ‘ethos’ comunitário, as pessoas não se mobilizam e aí as coisas podem entrar em ruínas”, explica Rui.

