Se os cariocas confiassem no atual governo do estado do Rio, provavelmente estaríamos comemorando o anúncio da abertura da nova sede do Museu da Imagem e do Som (MIS), em Copacabana, depois de uma “obra”, que começou em 2010 e deveria ser entregue em 2012. Esse museu radicalmente carioca reúne, em duas sedes em prédios históricos no Centro do Rio, mais de 700 mil itens – fotografias, negativos, discos, filmes, fitas de vídeo e de áudio, livros, partituras, cartazes e objetos de todos os tipos, de instrumentos e roupas a medalhas e troféus. O MIS foi idealizado e fundado nos primeiros anos do novo Estado da Guanabara para ser um centro de documentação audiovisual da memória carioca, com o objetivo de formar e fortalecer a identidade da nova unidade federativa, a partir da cultura carioca, da cidade do Rio de Janeiro, uma identidade desvinculada do Distrito Federal transferido para Brasília em abril de 1960.
Para entender a criação do MIS, é necessário voltar àquele tempo quando efetivamente havia governo no novo estado. Carlos Lacerda, primeiro governador da Guanabara, já era um político de projeção nacional, principal líder da UDN no Parlamento, principal opositor do trabalhismo de Getúlio Vargas no Congresso e, antes, como jornalista, no seu jornal A Tribuna da Imprensa. Governador, Lacerda investiu em obras de infraestrutura urbana – saneamento e transporte – e também desenvolveu uma política cultural para manter e firmar o Rio de Janeiro como “vitrine do Brasil”.
Foram criadas a Sala Cecília Meirelles, o Museu do Primeiro Reinado, o Parque Lage e o MIS. “Aqui se poderá formar um centro de documentação viva, de documentação atuante, que deixe registrada a voz, o gesto, a figura daqueles que, de uma forma ou de outra, contribuem para tornar intensa e viva a imagem do Rio de Janeiro, projetando-o no Brasil e no mundo”, discursou Lacerda, na inauguração do MIS, em setembro de 1965, como parte das celebrações do IV Centenário da cidade fundada por Estácio de Sá em 1º de março de 1565.
O novo museu foi instalado num edifício de arquitetura neoclássica, erguido na Praça XV para abrigar o pavilhão do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, na Exposição do Centenário da Independência, em 1922. Na inauguração, o museu já reunia acervos valiosos para a história do Rio de Janeiro como os do pesquisador e radialista Almirante (Henrique Foreis Domingues), com centenas de partituras editadas e manuscritas de compositores de choro e outros gêneros musicais brasileiros, gravações de música; dos fotógrafos Augusto Malta e Guilherme dos Santos, com centenas de imagens da cidade desde o começo do século 20, e do jornalista Maurício Quádrio, com mais de três mil discos e fitas de rolo com músicas e discursos.

Em seus primeiros anos, o novo MIS agitou a vida cultural carioca. Em 1966, o pesquisador Ricardo Cravo Albim, nomeado diretor do museu, criou a série Depoimentos para a Posteridade, inaugurado pelo histórico sambista João da Baiana, seguido por outros pioneiros como Pixinguinha e Heitor dos Prazeres. A música popular sempre teve destaque na série – gerando até queixas de que o MIS estava se tornando um museu da MPB. Mas, nos mais de mil relatos hoje reunidos, estão também registradas os depoimentos de João Cândido, líder da Revolta da Chibata, do cineasta Humberto Mauro, pioneiro do cinema brasileiro, de escritores como Clarice Lispector, Jorge Amado e Ariano Suassuna, de estrelas do cinema e do teatro com Fernanda Montenegro, Grande Otelo, Sérgio Britto e Haroldo Costa, e de craques do futebol como Pelé e Garrincha.
Havia filas para a pequena sala de cinema do MIS, que exibia filmes raros e de vanguarda. O museu criou os prêmios Golfinho de Ouro, para celebrar os destaques em cada uma das sete áreas do MIS – Música, Teatro, Cinema, Artes Plásticas e Literatura, Comunicação e Esportes – e o Estácio de Sá para premiar gestores e administradores ligados à cultura. O sucesso da iniciativa, como forma de preservação da memória local através visual, gerou a multiplicação de museus da imagem e do som por outros estados e outras cidades.
O MIS do Rio de Janeiro era um centro de debates e cultura em plena ditadura, cada vez mais dura a partir do AI-5 em 1968. Essa movimentação foi diminuindo até parar de vez quando a ditadura decretou o fim da Guanabara e a fusão com o estado do Rio de Janeiro. Os museus e outros equipamentos culturais perderam independência e passaram a ser geridos pela área da educação.

O MIS resistiu graças à dedicação de seus funcionários e à memória afetiva da classe artística e de muitos cariocas, que conseguiram evitar a transferência da sede para a distante Barra da Tijuca e a demolição do prédio histórico da Praça XV para as obras do metrô, que gerou a campanha “MIS por um triz”. A historiadora Claudia Mesquita – autora do livro “Um museu para a Guanabara”, sobre a criação do MIS – escreveu que “esse mote (MIS por um triz) poderia ser usado para a trajetória do Museu da Imagem do Som como um todo – tanto do posto de vista material quanto simbólico”.
Em 1990, foi concluído o último grande investimento no museu: a recuperação da então maltratada sede histórica da Praça XV e a ocupação de outro prédio do começo do século, na Lapa, com parte do acervo e a área administrativa. Durante 20 anos, o museu seguiu ampliando seus acervos, organizando coleções (Elizeth Cardoso, Jacob do Bandolim, Marlene, Dorival Caymmi, Nara Leão), gravando os depoimentos para a posteridade e buscando atender os pesquisadores. Mas enfrentou uma crônica falta de verbas e investimentos até ser anunciado que o MIS ganharia uma nova e moderna sede em frente ao mar de Copacabana, ambiciosa iniciativa típica do governo Sergio Cabral Filho, aquele que acabou preso por corrupção também crônica.

A obra do projeto de um edifício de oito andares para o MIS começou em 2010, teve a conclusão anunciada para 2012, foi seguidamente adiada, e, com o Rio de Janeiro praticamente quebrado, finalmente paralisada em 2016. Em 2020, o governo estadual anunciou a retomada das obras e sua conclusão em 2021 – era obviamente um prazo mentiroso, pois, apesar dos oito andares terem sido erguidos na fase inicial, partes da construção estavam sucateadas e muitas intervenções estruturais precisavam ser feitas. A esperança que a obra estivesse pronta em 2025 para a celebração dos 60 anos do MIS também não se concretizou.
Agora que o governador Claudio Castro prepara para sua despedida – em abril, para tentar uma vaga ao Senado – veio o anúncio da inauguração da nova sede do MIS em Copacabana no dia 19 de março. O atual governo do Rio – que tem como marca ter promovido as maiores matanças policiais da violenta história do estado – nunca teve a cultura entre suas prioridades; a secretária estadual é irmã de um deputado, ambos sem maiores ligações com a área.
É uma inauguração meia-bomba – “soft opening” (“abertura suave”) nas palavras oficiais. Vai ter uma festa de lançamento da nova sede, mas o trabalho de museografia e as exposições do MIS só vão começar após um trabalho de finalização interna ao longo dos próximos meses. A ideia, desde o começo deste projeto, é que a sede do MIS em Copacabana fosse um lugar de exposições e eventos, com os acervos sendo preservados e abertos para pesquisa nas sedes do Centro.
Mas não deixa de ser um alento a volta do Museu da Imagem do Som ao noticiário cultural – depois de anos em que as iniciativas do MIS, como a criação de uma rádio digital para divulgar seu rico acervo sonoro e a inauguração da fototeca estadual, eram sempre ofuscadas pela novela da obra inconclusa. Mesmo na semana passada, um mês antes da anunciada inauguração, ainda havia andaimes, redes e tapumes naquele prédio que, desde 2011, sempre aparentando meio abandonado, parecia um monumento ao descaso com a memória carioca em frente à praia de Copacabana.

