No verão do Rio de Janeiro, o calor não acompanha a mesa. Ele manda nela. A fome muda de humor, o relógio perde rigidez e a cidade passa a comer em blocos: um belisco aqui, uma pausa ali, um prato que sustenta sem pesar. Não há espaço para solenidade gastronômica às duas da tarde, nem para jantar formal quando o sol ainda insiste em ficar.
Em 2026, comer bem no Rio significa entender esse ritmo e cozinhar para ele.
Durante os meses mais quentes, o corpo trabalha em esforço contínuo para manter a temperatura estável, o que pede refeições mais leves, refrescantes e nutricionalmente equilibradas.
“O apetite tende a diminuir, mas isso não significa empobrecer a alimentação. O ideal é apostar em fibras, proteínas e alimentos que ajudem o corpo a sustentar esse gasto energético”, explica a nutricionista Gabriele Lopes. “É leveza com inteligência”.
Quando o assunto é proteína fresca, o Rio mostra musculatura. A cidade é hoje o segundo maior consumidor de comida japonesa do país, com 4,6 milhões de pedidos mensais no iFood em 2024. Soma-se a isso um aumento de 28% na frequência de refeições fora de casa, puxado pelo consumo rápido, compartilhado e “on the go”, segundo a Consumer Insights 2024. O contraponto vem do bolso: no ranking global da Chef’s Pencil, o Rio figura entre as cidades menos acessíveis do mundo para comer fora, com refeições representando cerca de 4,2% da renda mensal média.
O resultado dessa equação aparece no prato neste verão: menos excesso, mais partilha. Porções pensadas para dividir, cardápios que estimulam o retorno e cozinhas que entendem que comer bem, hoje, é mais experiência do que volume.
Centro: dividir, beliscar e ficar mais um pouco
O Centro deixou de ser apenas território de passagem. Com o impulso do projeto Reviver e o selo da Time Out, que elegeu a Rua do Senado como a mais cool do mundo, a região virou palco de uma gastronomia de balcão viva, informal e convidativa. Dentro do Mercado Central, o Bocado se encaixa perfeitamente nesse espírito. Aberto para almoços sem pressa, pós-expedientes elásticos e eventos de rua, a casa aposta em pequenas criações pensadas para compartilhar.
“É quase uma degustação, mas descomplicada, leve e sempre aberta à repetição”, define a chef Júlia Raposo, que já assinou buffets do G20 e do Brics.
Os assados da chamada “TV de cachorro”, como o galeto de pele crocante, sustentam sem pesar. Para equilibrar, entram acompanhamentos frescos, como a batatonese com picles de repolho e gergelim.
“O menu muda conforme o que está mais fresco e na estação. O verão pede isso”, diz a chef.
Essa lógica de permanência se amplia com eventos que unem vinhos de baixa intervenção, frutos do mar e música analógica.
“Vinho branco, laranja, espumante e coquetéis combinam perfeitamente com ostras e rua viva”, resume Larissa Lopes, também à frente da Destilaria Maravilha.
Para quem chega pela primeira vez, ela indica o caminho curto: hibisco tônica no copo e, no prato, massa choux com fonduta ou língua no espeto glaceada em melaço asiático.
“Quando o dia vira noite, a vontade de ficar só aumenta.”

Do outro lado da Presidente Vargas, o Dois de Fevereiro, de João Diamante, transforma biografia em cardápio. Após um teste de ancestralidade que revelou raízes na África Ocidental e na Bahia, o chef passou a cozinhar com ainda mais consciência de território.
“Quando você fala de Rio e Bahia, você fala de África. O que faço aqui é ressignificar essa história pela comida.”
A memória do mar aparece logo na entrada, com o pastel de polvo e o vinagrete servido frio. Até a feijoada ganha leitura de verão, com maxixe, abóbora e quiabo, sempre em porções para compartilhar. Na sobremesa, o contraste vira assinatura: bolo de coco molhado com sorvete de dendê e milho crocante. O prato é um desafio pessoal do chef.
“O dendê é intenso, quente. Transformar isso em algo refrescante foi um processo longo e desafiador, mas que deu muito certo. Tem gente que vem aqui só por essa sobremesa.”
Já as coxinhas de bobó, bolinhos de joelho de porco e miniacarajés dividem a mesa com batidinhas e drinques leves, criando uma refeição que se constrói aos poucos, no ritmo da conversa.
Glória: vinho, comida fria e almoço que vira tarde
A Glória volta ao mapa com força, impulsionada pela feira de domingo e por casas que entendem o valor do tempo prolongado. O Déjà-vu simboliza esse movimento, com culinária que passeia pela França, Japão e Brasil com facilidade, estética retrô e mesas que atravessam a tarde.
“A culinária asiática ensina muito sobre equilíbrio entre gordura e frescor”, explica Jonas Aisengart, um dos sócios da casa. Uma receita bem verão.
No cardápio, isso aparece no refrescante carpaccio de atum com figo e noz-pecã e no sanduíche de atum donfitado, ricota e salada de batatas com wasabi.
“O atum é muito coisa do carioca. Ele faz parte da nossa vida desde o sanduíche natural da praia”.

Entre os destaques do cardápio estão: o aveludado carpaccio de filé mignon, o polpette de carne com salsa de tomate e a burrata com berinjela marinada, vinda diretamente da Fazenda Vermelha, no Vale do Café. Tudo pensado para acompanhar a extensa carta de vinhos naturais e de baixo processamento.
Para o verão, a casa já prepara sessões de jazz ao vivo aos domingos à tarde e menus especiais de almoço pensados para quem quer esticar o dia sem pressa.
Entre a Lapa e a Glória, o Jurema, do chef Pedro de Attayde, transforma simplicidade em assinatura. Ingredientes sazonais, pescados e hortaliças guiam um menu que conversa com a feira da Glória. Torresmo prensado com vinagrete de banana, pastel de moqueca de polvo e o polvo curado na cachaça mostram como técnica e informalidade podem dividir a mesma mesa.

Lá a comida de boteco ganha releituras, com o torresmo prensado com vinagrete de banana e o pastel de moqueca de polvo. Entre os queridinhos: a bala de barriga curada e assada em caramelo de vinho tinto, tomilho e o rosbife com molho tártaro e picles de pimenta de cheiro acompanham um chope como ninguém.
Para o verão, a aposta é no tradicional PF no Jurema, com cardápio que muda a cada mês e que você só encontra de quinta a domingo (inclusive feriados) até às 17h. Ali, o foco da cozinha são as técnicas brasileiras e a sazonalidade, priorizando pescados frescos, hortaliças e o apoio a pequenos produtores locais.

A poucos passos dali, o Suru Bafo assume o fogo como centro da experiência.
“É comida para comer com a mão, dividir e conversar”, resume o sócio da casa Igor Renovato.
Barriga de porco com melaço picante, milho tostado com quiabo e hortelã e manjuba grelhada com vinagrete constroem um verão que cheira a brasa e praça. Igor aposta na carne de sol feita na casa, que aparece com abóbora assada e cebola roxa, e no bolovo de galinha caipira com gema mole.
“É comida de quintal, mas com precisão. Tudo passa pelo fogo ou fumaça, e a gente respeita os tempos da grelha”, diz ele.
O resultado você já sente na primeira garfada.
O verão em Botafogo: entre o sanduba de sushi e o vegetal sexy
Botafogo segue como laboratório gastronômico da cidade, onde comer virou um gesto rápido, repetido e integrado à rotina. O Glorioso Sushi traduz essa lógica em comida japonesa manual e sem cerimônia, com hand rolls feitos na hora, como o de pipoca de camarão com kewpie e o de vieira com noisette de limão, além de onigiris como o de umeboshi e tamago e o de salmão com cream cheese.
“É comida japonesa fresca, direta e cotidiana”, resume o sócio Jonas Aisengart.

Para o verão, a casa aposta em combos como o de praia, com onigiri, pepino agridoce e chá gelado artesanal. Prático, leve e com cara de piquenique urbano.
“Dá para botar na bolsa igual você leva um sanduíche.”
Há também pratos quentes como o takoyaki de camarão e catupiry com kewpie da casa, o cigarrete roll de lombo com geleia de abacaxi e o Orange Belly, barriga de porco em três cocções, glaceada com molho cítrico-picante.
Na Fernandes Guimarães, o Tititi deixa de ser apenas uma hamburgueria vegana e, neste verão, assume a forma de bar de petiscos vegetais. O espaço carrega a memória de açougue, loja de gesso e hamburgueria como parte da experiência.
“Essa bagagem vira detalhe memorável”, resume o mixologista Roberto Torres, um dos nomes à frente da casa.
A transformação vai da reforma do salão à reformulação do cardápio, agora 100% vegetal, com foco em petiscos. Permanecem os clássicos que fizeram a fama da casa, como o hambúrguer Maré (tofu marinado, empanado e crocante) e o burger de feijoada, agora ao lado da polenta crocante com creme de queijo maçaricado, tomates verdes fritos, croquetes e couve-flor empanada.
A cozinha de Tiago Feitosa cruza Ceará e Síria num discurso claro.
“Vegetal sexy é isso: textura, identidade e sabor de verdade”, crava Torres.

Copacabana: sem firula e com muita intenção
No Conserva, em plena Avenida Prado Júnior, os clássicos de botequim ganham nova vida com personalidade, acidez e muita brasilidade. A dupla Igor Renovato e Raí Mendes, do Suru, se une ao bartender veterano Thiago Teixeira para criar uma cozinha de acepipes que batizaram de “comida de palito”. Há desde o mix de frios com salame, tremoço e queijo canastra (uma alegria no verão!), a batatonese com botarga ralada, até patês de fígado e de sardinha na carta de experimentações. O escabeche de sardinha provoca o paladar, enquanto o espetinho de queijo com bacon “dá aquele quentinho no coração”.
“A semelhança entre o Suru e o Conserva está justamente em reproduzir uma gastronomia descomplicada. Copacabana não pede algo engessado”, resume Thiago.
Já no almoço de fim de semana, entram em cena pratos como arroz de costela, língua ao molho de cerveja preta com purê e até o “kaol” mineiro com ovo, couve e torresmo.
“O Conserva surge da vontade de conservar bons momentos, e isso, pra gente, também passa pela comida”, destaca Igor.

Ipanema: sotaque brasileiro e paladar asiático
Um gastrobar com sotaque asiático, técnica francesa e alma carioca. É nessa mistura que o Nosso, comandado pelo chef Michelin Bruno Katz, segue como um dos endereços mais coerentes da cidade para quem busca alta gastronomia sem rigidez. A casa trabalha com fusões asiáticas, ingredientes brasileiros e um jogo constante entre acidez, gordura e frescor, ideal para os dias de calor intenso do verão.
Logo nas entradas, a proposta se revela. O Wagyu Steak Tartare, servido com molho caesar de gergelim e picles de mostarda, entrega potência sem pesar. Já a macia couve-flor na brasa com béchamel mornay e o polvo glaceado em tarê de cambuci aparecem como pratos que sustentam o almoço, mas não derrubam o ritmo da tarde. Tudo isso em um espaço que mescla clima intimista com a informalidade e te convida a ficar mais um pouco.

Leblon: descomplicado, fresco e disputado
Nova sensação da Dias Ferreira, o Balcão 201 se tornou um dos endereços mais disputados do verão no Leblon — conseguir uma cadeira no balcão exige sorte, paciência ou planejamento. Sob comando do chef João Paulo Frankenfeld, recém-premiado com estrela Michelin pela Casa 201, a casa funciona como um bistrôbar, com pratos autorais, frescos e de pegada francesa, mas pensados para a informalidade carioca.
O cardápio muda com frequência, mas os queridinhos se destacam: steak tartare cortado na faca com gema curada, escargots na manteiga de ervas e o arroz de cogumelos com gema perfeita são boas pedidas para dividir. Entre os petiscos, o pastrami artesanal no pão de queijo da casa e o tártaro de peixe branco com vinagrete de maçã trazem frescor balanceado.
No verão do Rio, comer bem vira um acordo silencioso com a cidade. Não é sobre prato cheio, nem sobre ritual gastronômico, mas sobre saber a hora de dividir e seguir. A comida acompanha o ritmo da rua, do calor que aperta e da mesa que vira ponto de encontro com os amigos. Em 2026, quem entende isso come melhor: menos peso, mais circulação, mais tempo fora de casa.
Afinal, quando o Rio derrete, comer bem é saber ficar leve o bastante para continuar vivendo a rua.


