Com o enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, a Acadêmicos de Niterói vai estrear entre as grandes escolas do carnaval carioca no domingo, dia 15 de fevereiro. Mas no quesito treta, a novata do lado de lá da Baía já pode ser considerada campeã.
Até o momento, não há previsão de que o próprio presidente Lula (PT) saia entre os componentes no desfile em sua homenagem. Garantida mesmo, só a presença da neta Bia e, claro, de petistas aos montes. Mesmo assim, a Liesa teme que a irreverente plateia da Marquês de Sapucaí, reaja negativamente e mantenha a tradição de vaiar políticos que passam pela avenida, em carne e osso ou em alegorias — como fez com o ex-prefeito Marcelo Crivella, o ex-governador Wilson Witzel e o antecessor de Lula, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Afinal, carioca gosta de aplaudir — e adora vaiar.
Os dirigentes da liga das escolas estão divididos. Há quem tenha medo de que uma manifestação pública antipática possa provocar o corte do apoio federal ao desfile em 2027 — apoio este que foi materializado, este ano, em R$ 12 milhões repassados pela Embratur e pelo Ministério da Cultura.
Outros não acreditam em retaliação e lembram o espírito democrático dos governantes — mas preferem não precisar testar a tese.
Escola acha que o refrão foi excluído na vinheta por causa do ‘Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula’
Os caciques da Liesa não são os únicos de olho no desfile da azul e branco da terra de Arariboia. A TV Globo — que proíbe manifestações políticas de seus jornalistas e teme o desgaste provocado pela militância de atores e celebridades — está de cabelo em pé. Não gostaria de ver a turma exaltando Lula a plenos pulmões na avenida, e depois, a cena reproduzida nas redes bolsonaristas.
Mas também não vai baixar uma ordem unida contra o desfile. O veto poderia fazer o samba atravessar de vez. Por enquanto, a ideia é só mapear quem pretende desfilar, em que ala (ou carro) e acompanhar.
Aliás, tem mais treta com a TV Globo, mas dessa vez quem está ressabiada é a escola. Na vinheta da Acadêmicos de Niterói veiculada pela emissora o refrão desapareceu.
A turma acha que foi para evitar o “Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula”, popularizado no jingle da campanha presidencial de 1989, “Sem medo de ser feliz”.
E não gostou da tesourada.
A própria Acadêmicos de Niterói pediu aos componentes que não façam o L na avenida
A dona do enredo também tem tomado os seus cuidados. Tem circulado um pedido para que seus componentes evitem fazer o “L” com os dedos polegar e indicador, durante o desfile e os ensaios de rua, aos domingos, na Avenida Amaral Peixoto. Como publicou a coluna de Alcelmo Gois, no “Globo”, existe o temor de que o gesto tire pontos da escola por supostamente configurar “campanha antecipada”, já que Lula disputará a reeleição em outubro.
Definitivamente, não é só mais um enredo.

