O anúncio de austeridade fiscal feito pelo governador em exercício Ricardo Couto durou pouco no Diário Oficial. Menos de um mês após divulgar um pacote de redução de gastos e prometer cortes de até 60% nos patrocínios da Secretaria de Estado de Turismo (Setur), a pasta publicou uma sequência de extratos contratuais que somam R$ 12.449.000 em investimentos e repasses.
Os documentos oficiais publicados entre os dias 18 e 29 de maio mostram que, na prática, a tesoura anda cega. Os cortes prometidos pelo Palácio Guanabara ainda não alcançaram boa parte dos patrocínios bancados pelo estado, incluindo eventos privados, ações esportivas, agenda religiosa e até o reconhecimento de dívida milionária ligada a uma ação internacional do Flamengo.
Entre os atos publicados está o reconhecimento de uma dívida de R$ 1 milhão destinada ao Clube de Regatas do Flamengo. O valor é referente a débitos relacionados a um evento realizado no ano passado em Orlando, nos Estados Unidos.
Outro caso que chama atenção envolve a feira de noivas IC Week 2026, organizada pela empresa ACE Digital Ltda. Pelo terceiro ano consecutivo, o evento recebeu patrocínio da Setur. Desta vez, o valor subiu de R$ 400 mil — pagos em 2024 e 2025 — para R$ 500 mil.
Além de manter o apoio financeiro, o governo do estado ampliou o alcance do investimento. Em 2026, a verba cobre não só a edição do Rio, realizada no Hotel Windsor, mas também etapas em Curitiba e Porto Alegre.
Os maiores valores publicados no período estão concentrados no projeto Rally Carioca 2026, que recebeu R$ 2,25 milhões. Em seguida aparecem a Expo Agulhas Negras, em Resende, e o Rio Futsummit 26, ambos com repasses de R$ 1 milhão cada.
Também aparece na lista o evento religioso “Canção Nova Abraça Rio 2026”, no Engenhão, que teve contrato de R$ 600 mil formalizado no período — tema que já havia provocado desgaste político nos bastidores logo após o anúncio do pacote de contenção de despesas.
Contraste entre corte anunciado e repasses publicados
A divulgação dos novos extratos ocorre poucos dias depois de Ricardo Couto anunciar medidas de ajuste fiscal e defender publicamente a revisão dos patrocínios da Setur como parte do esforço de contenção de despesas.
Na ocasião, o governo informou que a redução de até 60% nos patrocínios geraria economia de cerca de R$ 600 mil aos cofres públicos.
Mas os números publicados desde então indicam movimento em direção oposta. Somados, os extratos da Setur chegam a R$ 12,4 milhões, valor que expõe o contraste entre o discurso de austeridade e a manutenção da política de patrocínios em larga escala.
No mais, é como diz o clássico do saudoso Cube da Esquina, “Agora não pergunto mais pra onde vai a estrada…”
O que diz a Secretaria de Estado de Turismo
A Secretaria de Estado de Turismo enviou uma nota ao TEMPO REAL sobre o assunto. Eis a íntegra:
“A Secretaria de Estado de Turismo informa que, por determinação do governador em exercício, desembargador Ricardo Couto, realizou uma ampla revisão dos patrocínios previstos no calendário turístico estadual. Como resultado, 25 eventos deixaram de receber apoio financeiro do Estado, gerando uma economia superior a R$ 26 milhões aos cofres públicos.
O valor economizado supera a meta inicial de redução de até 60% dos patrocínios, estabelecida pelo Governo do Estado, e reforça o compromisso da atual gestão com a responsabilidade fiscal, o controle de despesas e a gestão eficiente dos recursos públicos.
Os eventos citados na reportagem estão vinculados a contratos firmados e executados antes da adoção das medidas de contenção de gastos. Portanto, não se tratam de novos patrocínios autorizados após o anúncio das ações de austeridade.
Com relação ao projeto Casas Temáticas da Copa do Mundo de Clubes da Fifa 2025, cabe ressaltar que todos os times participantes receberam os mesmos recursos.
A Secretaria destaca ainda que sua política de patrocínios foi reformulada e passa a adotar critérios técnicos mais rigorosos, considerando impacto turístico, retorno econômico para os municípios, alcance de público, relevância regional e disponibilidade orçamentária.”
COM FÁBIO MARTINS









