A atuação do Comando Vermelho (CV) tem avançado sobre vilas caiçaras de Paraty, no Sul Fluminense, segundo relatos de moradores e registros policiais. A facção criminosa passou a controlar o tráfico de drogas e a ocupar áreas estratégicas como praias, trilhas e estacionamentos em comunidades tradicionais do município. As informações são da “Folha de São Paulo”.
Moradores relatam circulação frequente de homens armados pelas vilas. Nos últimos dois meses de 2025, houve registros de trocas de tiros entre criminosos e a Polícia Militar em Trindade, vila caiçara do Parque Nacional da Serra da Bocaina, localizada a cerca de 30 quilômetros do centro de Paraty e última antes da divisa com o estado de São Paulo.
Trindade vive principalmente da pesca artesanal, da agricultura de subsistência e do turismo ecológico. A vila ganhou notoriedade a partir da década de 1970, quando moradores se mobilizaram contra a ocupação de multinacionais e em defesa do território tradicional, durante a expansão da rodovia Rio-Santos.
Agora, segundo relatos locais, o desafio é outro: conter o avanço do crime organizado em uma das regiões mais preservadas do litoral fluminense. A localidade é apontada por moradores como uma das mais impactadas pela presença do grupo criminoso.
Domínio do tráfico em Paraty atrapalha aluguel de casas de veraneio e lazer nas praias
Um visitante que esteve na região em novembro afirmou à “Folha” ter sido ameaçado por dois homens ao tentar alugar uma residência. Segundo ele, os suspeitos se identificaram como membros da facção e disseram ter o objetivo de impedir a entrada de outras organizações criminosas. O caso foi registrado na 167ª DP (Paraty) e encaminhado ao Juizado Especial Criminal (Jecrim).
Em 2024, um estacionamento em Trindade foi dominado pelo tráfico e posteriormente retomado após mobilização dos moradores. Mesmo assim, denúncias indicam que o grupo segue utilizando trilhas e rotas de acesso às praias, inclusive em áreas de mata.
Em agosto, após denúncia anônima, a Polícia Militar localizou um acampamento improvisado em uma trilha da Praia dos Ranchos, uma das mais visitadas por turistas. No local, suspeitos embalavam drogas; três conseguiram fugir e um foi preso após se ferir durante a tentativa de escape.
Cobrança de taxas e reação da facção
Além de Trindade, há registros de atuação do tráfico em outras enseadas, como Praia do Sono, Calhaus e Pouso da Cajaíba. Na primeira, barqueiros que realizam o transporte local relataram a cobrança de taxas impostas por integrantes da facção.
Em dezembro, moradores organizaram uma manifestação contra a cobrança. Dias depois, um perfil anônimo em uma rede social, que se apresentava como integrante do Comando Vermelho, publicou uma mensagem defendendo a taxa. O texto alegava que o valor serviria para “criar uma reserva” para emergências, como falta de combustível ou problemas mecânicos, e terminava com tom de ameaça.
Tráfico avança para o centro histórico da cidade
Relatórios policiais indicam que a atuação do Comando Vermelho não se restringe às vilas caiçaras. Há registros da presença da facção também no centro de Paraty. Em outubro, um suspeito foi preso na Ilha das Cobras, próxima ao centro histórico, e declarou pertencer ao grupo criminoso.
Procurados pela “Folha”, o ICMBio, responsável pela gestão do Parque Nacional da Serra da Bocaina, e a Prefeitura de Paraty não responderam até a publicação da reportagem.

