Pouco mais de três meses após assumir a diretoria-executiva da Fundação Saúde, em plena crise da contaminação de transplantados com HIV, o ortopedista Marcus Vinícius Fernandes Dias cumpriu o que havia anunciado no início de fevereiro e deixou o cargo. Foi exonerado, a pedido, em edição extra do Diário Oficial desta segunda-feira (24). De acordo com seus planos, depois de uns dias de folga, voltará ao Hospital Estadual Azevedo Lima, em Niterói — onde estava antes da nomeação.
Em seu lugar, assumiu o angiologista Carlos Enaldo de Araújo Pacheco, que comandava a Diretoria Técnico-Assistencial da fundação.
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Fundação Saúde, só mais um órgão em crise
Servidor de carreira do Ministério da Saúde há mais de 15 anos, Marcus Vinícius é muito ligado ao Progressista, partido do ex-secretário de Saúde e deputado federal Dr. Luizinho. Bolsonarista e olavista, tem uma trajetória pública marcada por nomeações em órgãos que passam por graves crises.
Assumiu o Departamento de Gestão Hospitalar do Ministério da Saúde (DGH) no auge da Lava-Jato, depois de vários diretores serem presos. Em seguida, foi para o Instituto Vital Brazil, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) interditou a fábrica de soro. Foi nomeado no Adão Pereira Nunes, mais conhecido como Hospital de Saracuruna, quando o então prefeito de Caxias, Washington Reis, entrou em guerra com o Secretário estadual de Saúde, Carlos Alberto Chaves.
Assumiu, pela primeira vez, o Azevedo Lima quando surgiu uma denúncia de desvio de doses da vacina contra a Covid envolvendo o diretor, Rogério Casemiro. Foi para Brasília no auge da pandemia; e voltou para o Azevedo Lima quando a organização social que administrava a unidade saiu sem pagar aos fornecedores e trabalhadores — e a Fundação Saúde assumiu, pela primeira vez, um hospital de emergência, com a chamada “porta aberta”.
Julgamento começou no mesmo dia
Começou, também nesta segunda-feira, o julgamento do caso envolvendo o laboratório PCS Saleme, contratado pela Fundação Saúde — em administração anterior à de Marcus Vinícius — e acusado de falsificar exames que resultaram na contaminação de seis pacientes transplantados com HIV.
A 1ª audiência de instrução aconteceu ontem, na 2ª Vara Criminal de Nova Iguaçu, e teve como foco a oitiva de testemunhas do Ministério Público do Rio (MPRJ) e das defesas dos seis réus.
Os acusados respondem pelos crimes de associação criminosa, lesão corporal e falsidade ideológica. Entre os réus estão Matheus Sales Teixeira Bandoli Vieira, Walter Vieira e Adriana Vargas dos Anjos, todos ligados à direção do laboratório, além de três funcionários: Jacqueline Iris Barcellar de Assis, Ivanilson Fernandes dos Santos e Cleber de Oliveira Santos.
O grupo foi denunciado pelo MPRJ em outubro de 2024, quando a juíza Aline Abreu Pessanha aceitou a acusação.
Irregularidades
O caso veio à tona em setembro de 2024, quando um paciente transplantado apresentou sintomas neurológicos e testou positivo para HIV. Uma revisão dos exames realizados pelo laboratório revelou erros em testes feitos antes da doação de órgãos, resultando na contaminação de pelo menos seis receptores.
O MPRJ afirma que os acusados tinham consciência dos riscos para pacientes imunossuprimidos e, ainda assim, permitiram a utilização dos órgãos.
As investigações apontaram que, mesmo contratado pela Fundação Saúde — órgão do governo do estado — o PCS Labs Saleme operava sem alvará e não possuía licença sanitária para funcionar. Um relatório da Vigilância Sanitária encontrou 39 irregularidades nas instalações, incluindo a presença de sujeira, insetos mortos e formigas em bancadas de análise.
Administração de mais de 50 unidades
Quando contratou o PCS Labs Saleme, a Fundação Saúde era comandada por João Ricardo da Silva Pilotto, nomeado em 2021, ainda na gestão do secretário Alexandre Chieppe. Pilotto permaneceu no cargo até outubro do ano passado, quando explodiu o escândalo da contaminação de transplantados pelo vírus HIV. Toda a diretoria pediu exoneração.
A Fundação Saúde é responsável pelo funcionamento de mais de 50 unidades de saúde do estado, e pela contratação do laboratório PCS Saleme para a realização dos exames para transplantes. O órgão foi acusado de erros em laudos que fizeram com que órgãos com o vírus HIV fossem liberados para serem transplantados. Pelo menos seis pacientes foram contaminados.