A última edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública aponta o estado do Rio como exemplo emblemático de infiltração do crime organizado no poder público. Em um capítulo dedicado à letalidade policial e à chamada “captura institucional”, a publicação cita a prisão dos ex-deputados TH Joias e Rodrigo Bacellar.
Para o Fórum Brasileiro de Segurança, responsável pelo Anuário, os episódios registrados no Rio indicam que a cooptação de policiais, autoridades e representantes eleitos pode funcionar como estratégia deliberada das facções para interferir na atuação do estado, antecipar operações e proteger integrantes de grupos criminosos.
“O caso do Rio de Janeiro talvez seja o mais emblemático, mas não é o único. Assim como a morte de Vinicius Gritzbach no aeroporto de Guarulhos em 2024, executado por um policial militar da ativa, trouxe à tona uma ampla rede envolvendo policiais e crime organizado em São Paulo, temos assistido a inúmeros casos em que o crime organizado busca se infiltrar na Administração Pública”, afirma um dos trechos da pesquisa.
O ponto central da análise é que o crime organizado não atua apenas por meio do domínio territorial, do comércio ilegal de drogas ou da violência armada. As organizações também procuram acesso a informações, proteção política e capacidade de interferência sobre decisões do Estado.
Captura institucional pode afetar criação de políticas
No capítulo, o Anuário define a cooptação de agentes públicos como um problema que ultrapassa a esfera disciplinar e que pode afetar diretamente a formulação e a execução das políticas de segurança.
Apesar de citar o Legislativo, a pesquisa não apresenta um levantamento quantitativo de parlamentares investigados. Trata-se de uma análise qualitativa, baseada em episódios considerados representativos pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Policiais teriam antecipado operações para criminosos
A infiltração descrita pelo documento também envolve as forças de segurança. O Anuário menciona investigações da Polícia Federal que resultaram na prisão de policiais militares acusados de fornecer informações sobre operações que seriam realizadas em comunidades dominadas por facções.
Para o Anuário, os casos encontrados em diferentes estados mostram que a infiltração não deveria ser interpretada como um simples desvio isolado cometido por um policial.
“Esses casos indicam que a cooptação de agentes públicos configura estratégia sistemática das organizações criminosas, e não desvio individual pontual, comprometendo a efetividade das políticas de segurança pública em múltiplos níveis federativos”, cita o Anuário.
Corrupção e violência policial aparecem conectadas
O capítulo está inserido em uma análise sobre letalidade policial. O Fórum argumenta que o uso excessivo da força, a corrupção de agentes e a infiltração de organizações criminosas não são fenômenos completamente separados.
Segundo o Anuário, corporações com mecanismos frágeis de supervisão e responsabilização tornam-se mais vulneráveis tanto ao abuso da força quanto à captura por interesses criminosos.
“Quanto menor a capacidade institucional de supervisionar o uso da força, maior tende a ser o espaço para práticas arbitrárias, ilegais, redes de proteção e captura de agentes públicos por organizações criminosas”, aponta a pesquisa.
Operação Contenção concentrou 15% das mortes de civis no Rio em 2025
O texto do Anuário sobre o Rio começa sua análise citando a chamada Operação Contenção, que resultou na morte de 122 pessoas, incluindo cinco policiais, em 2025. Segundo a pesquisa, os 117 civis mortos representaram 15% de todas as mortes provocadas pelas polícias fluminenses naquele ano.
O episódio é utilizado como ponto de partida para discutir os limites de controle sobre as instituições responsáveis pelo uso da força.
Anuário recomenda investigação de redes políticas e financeiras
Como resposta ao problema, a publicação defende que as apurações não se limitem aos atos individuais praticados por policiais, políticos ou servidores.
“A relação entre violência policial, corrupção e infiltração criminosa exige uma estratégia mais ampla de integridade institucional, capaz de identificar não apenas condutas individuais, mas também redes de proteção, fluxos financeiros, vínculos patrimoniais e conexões entre agentes públicos e organizações criminosas”, aponta o texto.
Para isso, o Anuário recomenda uma atuação articulada entre as instituições de segurança e Justiça, a Receita Federal, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras e as áreas de inteligência financeira e patrimonial.

