São Gonçalo e Niterói podem estar próximas no mapa da Região Metropolitana do Rio, mas a realidade da violência segue distante. Levantamento com dados do Instituto de Segurança Pública (ISP-RJ) mostra que, nos últimos cinco anos, o município gonçalense registrou quase o triplo de roubos de rua e de veículos em comparação à cidade vizinha: 20.645 contra 7.601.
Os dados abrangem ocorrências registradas entre 2021 e outubro de 2025. Nesse período, Niterói registrou 6.057 roubos de rua e 1.544 de veículos, enquanto São Gonçalo teve 12.649 roubos de rua e 7.996 de veículos. É preciso considerar o tamanho das cidades: a primeira tem aproximadamente 481.749 moradores, e a outra, o segundo maior município do estado, cerca de 896.744, quase o dobro. Ainda assim, proporcionalmente, a diferença de registros é muito maior.


São Gonçalo registrou uma onda de roubos no último domingo
O levantamento foi realizado após a onda de violência em São Gonçalo no último fim de semana. Apenas no domingo (23), foram registrados ao menos 39 roubos na cidade: um de pedestre, 38 de veículos e outros arrastões. A situação levou até o prefeito Capitão Nelson (PL) a usar suas redes sociais para anunciar que já solicitou reforço das forças de segurança ao governo do estado.
O combate aos roubos continuou ao longo da semana. Na madrugada de quarta-feira (26), a Polícia Rodoviária Federal (PRF) prendeu uma dupla suspeita de assaltos na BR-101 (Niterói-Manilha), no km 319, em São Gonçalo. A ação terminou em fuga, troca de tiros e prisão em flagrante na rodovia, que já havia sido alvo de reclamações devido à violência.
O município também está prestes a ganhar o 1º BPM, um novo batalhão da Polícia Militar, além do 7º BPM, que atende toda a cidade. A unidade, que está em fase de construção, será instalada no local onde atualmente funciona a base das Rondas Especiais e Controle de Multidões (Recom), no imóvel do antigo 3º Batalhão de Infantaria (3º BI), no bairro Venda da Cruz.
Especialista em segurança lembra que a segunda maior cidade do estado tem apenas um batalhão
De acordo com Daniel Misse, professor do Departamento de Segurança Pública da UFF, enfrentar o atual cenário de violência exige pensar as cidades além dos índices criminais, considerando também a disparidade demográfica entre elas. No caso de São Gonçalo, na visão dele, isso se torna ainda mais evidente, já que se trata do segundo maior município do estado, mas conta com apenas um batalhão.
“Esse é o primeiro desafio: garantir a segurança pública em uma área densamente povoada com recursos policiais limitados, mas com boa capacidade investigativa e investimento em técnicas de prevenção. Essa configuração dificulta o controle de atividades criminosas, como o escoamento de veículos ou equipamentos roubados, e a repressão de outros crimes”, explica Misse.
‘Há maior espaço para a expansão de crimes violentos’
O professor também destaca outras diferenças importantes entre as cidades da região. Em São Gonçalo, o controle de crimes como roubos e furtos é mais complexo. Apesar de o 7º BPM ser reconhecido na região metropolitana, o efetivo policial é reduzido em relação à população, o policiamento é menos intenso e, ao mesmo tempo, os índices de letalidade são elevados.
“Esses fatores contribuem para que São Gonçalo apresente índices criminais, especialmente de homicídios, violência policial, roubos, furtos e latrocínios, proporcionalmente maiores que os de Niterói”, afirma Misse.
Professor aponta caminhos para enfrentar o problema de segurança em São Gonçalo
Como solução para essa disparidade, o professor destaca a necessidade de maior investimento em inteligência policial, desarticulação de quadrilhas, controle dos fluxos de entrada e saída de mercadorias ilícitas e ampliação do quadro técnico pericial da polícia na cidade.
“A investigação policial e a desarticulação de quadrilhas podem ser estratégias eficazes, considerando as características geográficas, populacionais, demográficas e econômicas do município. Em um local com desigualdade social significativa, há maior espaço para a expansão de crimes violentos”, conclui Misse.

